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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

31.Out.17

Halloween Para Portugueses

Sérgio Ambrósio

Meus amigos, esqueçam a moda americana. Estamos em Portugal. Que tal fazermos um Halloween à nossa maneira, sem estarmos a fazer uma cópia do que se faz lá no país do Trump? Vamos a isso? Mãos-à-obra!

 

Esqueçam a abóbora. Isso não é tradicional de Portugal. Toca a pegar nos nossos ricos enchidos de fumeiro transmontanos. Esculpir aquelas caretas de bruxas nos presuntos, nas chouriças, nas alheiras e nos salpicões era fenómeno para pôr os americanos a lamber a beiça.

 

Nada de vampiros, lobisomens ou zombies. É mascararmo-nos de juiz. Se querem assustar alguém, no Outono de 2017, vistam-se de juiz com uma toga a dizer “século XIX”.

 

Doçura ou travessura? Não. Vamos dar uma nova roupagem ao nosso Pão por Deus e pôr os nossos miúdos a tocar às campainhas dos vizinhos a pedir o “Pão por Éder”, juntamente com a rima «Ouvimos passos no soalho/ o dono deve ser francês/ é quase feriado, caralho/ e o Éder vai fodê-los outra vez».

 

É proibido ouvir histórias assustadoras entre amigos. Neste dia, é pegarem nos CD’s do rapper Halloween, volume no máximo e deixarem os vossos amigos e vizinhos arrepiados com as narrativas aterradoras sobre o crime nos subúrbios de Lisboa.

 

Aproveitemos os dotes artísticos das nossas maquilhadoras e maquilhadores portugueses para darmos um toque exótico ao nosso Halloween com pinturas faciais a imitar a nossa múmia favorita: Aníbal Cavaco Silva.

 

Os mais corajosos podem também visitar sítios assombrados como as antigas instalações do BES, BPN, assim como o Parlamento português. Ressalva para não levarem carteira com dinheiro para nenhum desses lugares. Há lá fantasmas que vos podem gamar à grande.

 

Era giro acendermos uma velinha em honra do defunto poder de adivinhação que sai das mentes das nossas bruxinhas preferidas: a tia Maya e Maria Helena das cartas.

 

Por fim, acender fogueiras. Esperem, é melhor não! Fizemos isso o Verão todo, em Portugal, e correu mal. Pronto, não acendam fogueiras, não façam queimadas, nem usem pirotecnia, a não ser que estejam num estádio de futebol. Aí não há perigo. No futebol, estamos todos habituados a brincar com o fogo.

 

Então, acham que este Halloween tipicamente português seria mais ou menos divertido que o americano? Quero saber as vossas opiniões e a maneira como festejam (ou não) o Halloween. Divirtam-se!

30.Out.17

O que é o Futebol?

Sérgio Ambrósio

Vinte e dois homens a correrem atrás de uma bola? Errado. O futebol é o seguinte: vinte e dois deuses correndo atrás da beleza. Para quê? Para a entregarem no coração dos adeptos, pois para eles só a bola de futebol é que esconde a feiura e a desgraça do mundo.

 

Pensem nisto: qual é o sentido do futebol? Resposta: marcar golos e ganhar. Qual é o sentido da vida? Ninguém sabe, excepto o adepto de futebol. Para ele, o sentido da vida é apoiar o seu clube do coração. Que ninguém ouse contrariar um adepto que diga que o futebol é mais importante que a vida só porque ele descobriu o mistério da sua presença no mundo e muitas outras pessoas ainda não descobriram o que andam aqui a fazer.

 

Vendo bem, o futebol é a única maneira de muitas pessoas encontrarem e viverem um grande amor. Se não fosse o futebol, muitas pessoas morreriam sem saber o que é o amor, sem terem tido uma alegria no coração.

 

- Amas-me?

 

- Claro que te amo.

 

- Mas amas-me tipo o quê?

 

- Amo-te tipo o meu clube de futebol. Amo-te como se fosses o Aboubakar a fazer um hat-trick, como se fosses o Casillas a defender um penalty contra o Real Madrid, como se fosses o Diogo Dalot a capitanear o Porto no jogo do título…

 

- Que bom. Mas eu não te amo, desculpa. Eu sempre quis viver um grande amor, desde menina que sonho com esse amor. E tu não me dás isso. Portanto, é com o Porto que eu quero viver esse amor arrebatador e excitante, vou tornar-me sócia do Porto. Se quiseres, podemos ser vizinhos de bancada. Topas?

 

- (atónito mas depois muda para um semblante mais alegre) Claro!

 

O futebol é igualmente a forma mais divertida e genuína de esticares o dedo médio para os problemas da vida real.

 

Não se iludam, mais tarde ou mais cedo, ireis trocar de namorada, por muito que lhe devotem carinho, ireis trocar de carro, de voto, de casa, de roupa. Sereis traidores de tudo, inclusive de Deus, mas nunca sereis infiel ao vosso clube. Porquê? Não sei. Se bem que se houvesse infidelidade, eu podia abrir um site de relacionamentos para adeptos traidores de clubes. E provavelmente ficava milionário.

29.Out.17

Top 10 Castigos ao Juiz Neto de Moura

Sérgio Ambrósio

Sinto que sou o único português que ainda não emitiu opinião sobre o juiz Neto de Moura. Felizmente, estou cá agora para colmatar esse embaraçoso falhanço e sugerir os 10 piores castigos que deveríamos infligir ao juiz. Não há nada que se compare à justiça popular contra juízes.

 

O castigo número 1 era o senhor juiz levar com uma moca feita de bíblias na mona, para nunca mais misturar justiça com religião.

 

O castigo número 2 era ser obrigado a fazer um workshop de contemporaneidade a ver se desapareciam da sua mente os ideais do século XIX.

 

O terceiro castigo era pô-lo durante um ano a atender chamadas telefónicas na APAV.

 

O quarto castigo era pô-lo a limpar as matas portuguesas porque, por mais de uma vez, já demonstrou que ser juiz não é a área profissional certa para ele.

 

Amassar pão, de borla, na Padaria Portuguesa até ganhar feridas nas mãos e não haver manicure alguma no país que o atendesse. Esse seria o castigo 6.

 

Castigo 7: passar um ano preso numa cadeia feminina a ver se passava a gostar mais de mulheres. Ou então a ver se elas lhe davam uma mudança no visual, nomeadamente ao nível de hematomas.

 

Dar-lhe 100 chicotadas de noção a ver se sangrava remorso e arrependimento pelo que escreveu no acórdão, eis o oitavo castigo.

 

O castigo nove era fazer dele uma espécie de Presidente Marcelo, mas que percorreria Portugal, a pé, para ir dar abraços e beijinhos a todas as mulheres que já levaram um par de chifres na vida.

 

Por último, o décimo castigo, era entregar o juiz aos Super Dragões, que é a entidade competente para tratar da saúde de terroristas mouros. Neto de Moura?! Mas isto é nome para um juiz trabalhar num tribunal do Porto, carago? Este homem não é do Norte, carago! Andar violeta com ele, fogo!

28.Out.17

A Moça do Shopping

Sérgio Ambrósio

Tenho pena da moça que vende cartões de crédito no shopping. Se não fosse chata, eu pararia. Porque toda a gente a evita como se ela tivesse uma doença contagiosa. E via-se o desalento no seu olhar por não conseguir impingir aquela treta a ninguém. Ela era muito gira. Se eu não quisesse curtir a minha solidão deixaria que ela me abordasse só para lhe fazer companhia. E ela a mim.

 

Imagino-a, à noite, quando chega a casa, depois do trabalho, a perguntar-se o porquê das pessoas fugirem dela como o diabo da cruz. Talvez chore. Talvez o namorado lhe diga palavras bonitas para a animar. Por certo, ela pensa que vai arranjar um trabalho melhor, em que as pessoas não tenham como fugir dela. Tipo caixa de hipermercado ou funcionária das finanças. Não há como evitá-las.

 

Aquelas vendas são irritantes porque não são feitas de forma tradicional. Não é o cliente que vai ter com o vendedor para comprar o produto. É uma venda de guerrilha em que o vendedor procura surpreender o potencial cliente e pregar-lhe um constrangimento que o leve a adquirir uma cangalhada que nunca pensou comprar na vida.

 

Talvez aquela jovem sonhe, um dia, ser apresentadora de televisão. Assim, dirá aos seus botões que vender cartões de crédito no shopping é o seu estágio curricular obrigatório. Primeiro, a tarefa dura de lidar com as pessoas presencialmente, saber manipulá-las, contorcer-lhes a inocência e sacar-lhes o dinheiro. Depois, quando ganhar o traquejo necessário, florescerão rosas no seu sorriso a apregoar na TV o 760 300 900 e o glamour da sua presença terá o magnetismo de fazer com que milhares de pessoas disquem o número, sem que ela tenha de olhar na cara feia das pessoas nem de lhes sentir o bafo azedo nem de levar com o seu desdém.

 

Fiquei curioso sobre o que terá de especial aquele cartão, que parece ser oferecido, mas que deve trazer uma carrada de juros para nos emagrecer a conta bancária. Será que seria mais feliz se fosse dono daquele cartão? Acho que não. Só me traria problemas provavelmente. Fico a pensar no que a moça faz aos cartões que não vende. Se for esperta, rouba-os para compensar as horas tristes do trabalho que lhe paga um cheque para a infelicidade. Se for justa, divide comigo os lucros devido à minha empatia para com ela e dedicatória desta minha crónica.

27.Out.17

Super Estrelas

Sérgio Ambrósio

Na flash interview, um repórter prepara-se para entrevistar um árbitro.

 

REPÓRTER

Como é que acha que correu este jogo?

 

ÁRBITRO

O jogo correu bem. Acho que a arbitragem está de parabéns. Conseguimos ser criativos no jogo, marcámos um penalty que ninguém viu e que decidiu o jogo e isso é a prova provada de que os árbitros são especiais e que têm super

poderes. Eu acho mesmo que os árbitros são deuses e que quando falecessem deviam ir todos para o Panteão Nacional.

 

REPÓRTER

Mas não tem vergonha de prejudicar o FC Porto?

 

ÁRBITRO

Amigo, quem tem vergonha passa mal e nós queremos passar muito bem. Enfim, queremos continuar a dar alegrias aos nossos adeptos.

 

REPÓRTER

Mas os árbitros não têm adeptos...

 

ÁRBITRO

Isso diz você que nunca viu as mensagens e telefonemas de pessoas que nos dizem amar, que somos ídolos deles e que queriam ter o dinheiro que temos no banco. Somos uma classe profissional muito amada neste país. A prova provada de que os árbitros têm adeptos em Portugal é que não se fazem programas de televisão para se comentar os jogos de futebol. Fazem-se programas para se falar de árbitros. Pois é, as estrelas somos nós, que enriquecemos de maneira ilícita, que temos sexo grátis com prostitutas, que temos viagens e jantares de borla.

 

REPÓRTER

Mas você não é um árbitro. Você é um corrupto!

 

 ÁRBITRO

Todas as semanas. Pessoal, sigam-me no Facebook, Twitter, Instagram, Badoo e Hi5. E nada de insultos, nada de pedir bilhetes para jogos. Só respondo se for para dar o meu NIB ou para falar sobre as várias opções que têm para me corromper. Agora tenho mesmo de ir embora, amigo, pois tenho ainda hoje uma festa em minha homenagem, seguida de uma sessão de autógrafos no Catujal. Se quiserem que vos meta na guest list mandem e-mail para arbitrosafado@tudo.pt

26.Out.17

O Povo Terrorista

Sérgio Ambrósio

Um bombista suicida chega ao Céu e depara-se com Maomé.

 

- Acabei de me rebentar, quero as minhas 72 virgens!

 

- Olha outro que ainda agora aqui chegou e já está com exigências… Calma, jovem. Está ali a Yasmine, gordinha, 49 anos. Podes começar com ela.

 

- O quê?! 49 anos, Maomé? Aquilo parece um elefante! Estás a gozar com a minha cara? Até a minha mãe era mais nova! Eu quero virgens de 14 anos, no máximo 16. Foi para isso que me explodi. Cumpri os meus deveres, agora quero os meus direitos.

 

- Nada disso, filho. Mas tu pensas que isto é a casa da mãe Joana ou quê? Há leis restritas no Céu sobre pedofilia. Todas as virgens que trabalham nesta casa de alterne chamada Céu são maiores de 18 anos. Mas tu julgas que eu quero que venha cá a polícia e a ASAE e me fechem o estabelecimento ou quê? Aqui, há leis, há regras.

 

- Então e onde estão as virgens de 18 anos?

 

- Estão esgotadas, pá. Os que se rebentaram antes de ti já as levaram. Em stock, só tenho a Yasmine, como te disse. A Shamira, com 43 anos, em que o único problema é que tem os dentes podres e não tem vagina e a Talissa, com 39, jeitosinha, mas que ninguém lhe pega porque é corcunda e anã.

 

- Que caraças, Maomé. Isto não está nada bom para um gajo se rebentar e depois vir buscar só virgens que não prestam para nada. Até na minha aldeia tinha moças mais bonitas.

 

- É muita gente a rebentar-se! Gulosos. Depois dá nisto. Eu estou farto de passar esta mensagem lá para baixo mas ninguém me presta atenção. O povo terrorista é um povo que está muito guloso. E isso é pecado. Só que vocês terroristas, com a tesão, não se lembram dos pecados! Só estão interessados em fornicar 72 jovens virgens no Céu. Mas não se lembram que podem chegar aqui e encontrarem uma virgem de 50 anos que foi freirinha e que agora só queria um terrorista jovem e cheio de cio que se pusesse em cima dela para lhe recuperar o tempo perdido fornicando, fornicando e fornicando.

 

- Achas, Maomé? Na Terra, ninguém está a pensar nisso! Pensamos todos que são jovenzinhas menores de idade, lindas, virgens e que vão ser nossas.

 

- Pois é, meu filho. O povo terrorista está muito guloso e discriminatório. Se as virgens passam dos 18 anos, reclamam. Se é gordinha, é um problema. Se é travesti é porque é travesti.

 

- Há travestis aqui?

 

- Há sim. Desde que não tenha herpes, toda a gente pode ser escrava sexual no Céu, meu filho. O problema é o povo terrorista estar muito guloso e discriminatório. E depois, o povo terrorista é um povo que só pensa em sexo. Toca a rebentar-se para ter sexo. Não. Tem que se ter um ideal e uma causa! Não é só rebentar-se, chegar aqui e toma as tuas virgens lindas. Não pode ser. O povo terrorista está muito guloso, discriminatório e tarado. Muito tarado. Até pensavam que podiam ser pedófilos e tudo. Nada disso. Enquanto eu for o chulo desta casa de alterne, estas são as regras, meu filho.

 

- Fogo, se sabia não me rebentava. Fui mesmo burro em não ter sido cristão e não ter ido para padre. Aos menos nas igrejas deixam os padres violar putos menores de idade. Para que é que me tornei terrorista, fónix…

25.Out.17

Identidade

Sérgio Ambrósio

O meu amor pelo Porto começou quando decidi parar com as dores da minha mãe, no parto, e vim ver afinal o que era o mundo.

 

Eu tive uma infância normal. A primeira palavra que eu disse foi «Porto». A primeira frase que eu verbalizei com total sentido foi: até os comemos, carago.

 

Ao nascer, o meu coração era tão grande que os cardiologistas fizeram-me logo o diagnóstico: sofro de portismo.

 

Desse modo, o futebol é a minha doença. Ganhar é o meu remédio. A primeira vez que beijei o emblema do FC Porto foi um momento tão intenso que o emblema sugou-me a alma.

 

Como todos os meninos que crescem portistas, também eu queria ser como o senhor Pinto da Costa. É que tal como o senhor presidente mais titulado do mundo, eu também sou muito mais portista do que ser humano.

 

Agora que cresci, considero-me um romântico, um tipo que anda com um cachecol nas mãos, pedindo que o meu clube me faça feliz, ao mesmo tempo que lhe canto lindas serenatas.

 

Mas também sou um drogado porque desespero com a ressaca até que o meu clube faça golos. Que é como quem diz: me espete a agulha nas veias, coloque a droga a correr no sangue e me liberte a dopamina no cérebro para que eu grite feliz: goooolooooooo!

 

Sem o Porto, o sangue não me corria no corpo. Sempre que tenho dúvidas sobre a minha presença no mundo, vou ao Dragão. Pronto, já sei quem sou e qual é o meu papel na vida.

 

Há quem diga que viemos ao mundo para deixar a nossa pegada, a nossa impressão digital. Eu não vim fazer nada disso. Eu vim ao mundo para que o meu amor seja tão grande que permita ao meu clube encher o museu de taças. Quando morrer não levo nada. Deixo tudo no museu do FC Porto.

 

O meu conceito de amor, o meu ideal de vida: faço-te juras eternas, encho-te de taças e morro tranquilo.

 

Ser-se portista é estar-se preparado para ter os troféus como os melhores amigos em vez das pessoas. Para um portista, a beleza é ser ele a marcar um golo e não um jogador.

 

A minha alma tem mais azul do que o céu e o mar. Passarei a vida a procurar o Porto em tudo. Mas depois de morrer, o meu sonho é chegar ao Inferno e passados 90 minutos de lá estar eu poder cantar: “Campeões na Luz!”. Novamente.

24.Out.17

Melhor Que o Pelé

Sérgio Ambrósio

Factualmente, Cristiano Ronaldo é o melhor do mundo e o melhor futebolista português de todos os tempos. Mas o meu coração não vive de factos. Vive de emoções e sentimentos. E para o meu coração o melhor jogador da História do futebol foi… Deco.

 

Ele era o número dez, fintava com os dois pés e era melhor do que o Pelé. Não se escandalizem. Até porque o Pelé era uma lástima a fazer entradas de carrinho e o Deco fazia-as com a classe de quem faz das entradas de carrinho uma arte ao nível da marcação de golos ao ângulo.

 

A Art Deco não foi um movimento artístico, foi sim um prenúncio de homenagem a um futebolista que, um dia, nasceria em São Bernardo do Campo, no interior de São Paulo, mas que Deus quis que se tornasse tão portista como quem nasce na Ribeira ou em Massarelos. E que pintava obras-de-arte não com pincéis e tintas mas somente com umas chuteiras de pitões de alumínio.

 

Quando o Deco estava no Benfica, sabia-se perfeitamente que era uma questão de meses até se estragar irremediavelmente e desaprender de jogar. Quando o Deco jogou no Alverca, pressentia-se que o clube ribatejano podia tornar-se no melhor clube do sul do país, a qualquer instante. Quando o Deco estava no Salgueiros, sentia-se que o clube de Vidal Pinheiro podia ser campeão a qualquer momento. O Deco era tão bom que podia ter perfeitamente jogado a titular por Brasil e Portugal ao mesmo tempo.

 

Não é exagero. Um pé do Deco valia mais do que os quarenta e quatro pés dos jogadores titulares dos dois grandes clubes de Lisboa. Sempre que Deco jogava contra Benfica e Sporting, no dia a seguir aos jogos os telefonemas com reclamações aumentavam na DECO, mas não havia Defesa do Consumidor que valesse aos adeptos dos clubes alfacinhas.

 

Eu adoro o Deco e acho-o melhor do que o Pelé. Porque o Deco era o único futebolista no mundo que fazia três coisas em simultâneo em campo: jogava futebol, declamava a poesia de Drummond de Andrade e trabalhava duro como um fazendeiro em pleno pico de colheitas.

 

Deco saiu do Porto como Campeão Europeu. Mas ele já era o melhor jogador do mundo no melhor clube do mundo. O Deco era um jogador à Porto porque punha o seu talento individual ao serviço do Colectivo, dos Super Dragões e demais sócios e simpatizantes do Porto. Por isso, é que foi um ídolo tão grande entre os adeptos. E será sempre uma lenda. Para nós, portistas, maior que Pelé, Maradona, Cristiano Ronaldo ou Messi.

23.Out.17

A Carreira de um Artista da Bola

Sérgio Ambrósio

Percebe-se que o feto pode tornar-se num grande jogador de futebol quando os pontapés que dá na barriga da mãe têm um efeito de folha seca ou trivela.

 

Quando nasce, o pai põe-lhe uma camisola do seu clube e o bebé, num acto de ternura e agradecimento ao progenitor, beija a camisola.

 

Aos 2 anos de idade, o artista da bola parece que está a aprender a andar mas as pernas bambas são apenas um modo de treinar o cavamento de faltas à entrada e dentro da grande área.

 

Aos 4 anos de idade, ainda não sabe ler nem escrever nem fazer contas mas já devorou todos os livros do Luís Freitas Lobo porque os pais liam para ele antes de adormecer. Além disso, o craque já viu todos os Mundiais de futebol em DVD e já assistiu no YouTube às grandes finais da Champions League e a todas as temporadas do Tsubasa.

 

Aos 5 anos de idade, entra para a equipa de futebol da terrinha e torna-se num número 10 e capitão da equipa. Já tem um cântico em sua homenagem.

 

Aos 6 anos, já tem o Porto, Benfica e Sporting atrás dele mas como ainda tem amor à camisola e aos amigos permanece no clube da terrinha.

 

Aos 7 anos, esquece o amor à camisola e aos amigos e assina um contrato com um empresário que lhe arranjará uns testes na academia do Barça ou do Real Madrid porque o nosso artista da bola já tem namorada e em Espanha ganha-se mais dinheiro para se poder constituir família.

 

Aos 10 anos, já passou o sonho do Barça e do Real porque ele afinal não percebe nada de castelhano e, além disso, os espanhóis não gostam dos portugueses. Também já estava com saudades da comida da mãe.

 

Aos 12 anos, já vai na décima namorada e já tem um clube de fãs com página no Facebook e vários vídeos de golos e habilidades espalhados pelo YouTube. Já assinou por um clube grande português mas está emprestado ao clube da terrinha porque ainda é baixinho em comparação com os africanos e brasileiros matulões com data de nascimento falsificada.

 

Aos 15, já passa mais tempo nos bares e discotecas do que nos treinos no campo de futebol. O mister desculpa-lhe as bebedeiras e mete-o sempre a titular nos jogos porque ele é o craque da equipa.

 

Aos 16 anos, atina e leva o futebol mais a sério porque sabe que está a um passo de assinar um contrato profissional. Está de novo num clube grande de Portugal.

 

Aos 18, estreia-se pela equipa principal e para festejar o feito cheira as primeiras linhas de cocaína.

 

Aos 20, já é titular no clube e é chamado à selecção A porque o presidente da Federação devia um favor ao seu empresário. O seu passe já vale o triplo.

 

Aos 22, tem o Arsenal, o Dortmund e a Fiorentina à perna mas nenhum destes clubes quer pagar 5 milhões de euros ao seu empresário como comissão.

 

Aos 25, é gozado pelos companheiros de equipa por ainda não ter saído de Portugal para um grande campeonato europeu. Refugia-se no álcool para esquecer essa frustação.

 

Aos 27, acabou contrato com o grande clube português e não quer renovar. Porém, só tem como clubes interessados nos seus serviços o Elche, o Ossassuna, o Sassuolo, o Reading e o Cretéil Lusitanos. O empresário continua inflexível em querer receber os seus 5 milhões de euros em comissão.

 

Fez 28 anos e assinou pelo Basileia, que foi o único clube a atender ao pedido do empresário. O nosso craque aceita jogar na Suíça porque tem lá família emigrada e o Basileia está a jogar a Champions.

 

Aos 29, muda-se para um clube do Dubai pois não se adaptou ao frio da Suíça. O dono do clube dá-lhe um ordenado chorudo, mais um Porsche, dois camelos e um cartão vitalício para encher o depósito com gasolina à borla.

 

Aos 31, regressa para um clube mediano em Portugal mas passado quatro meses rescinde com o clube devido a salários em atraso. Fez só dois jogos como suplente utilizado porque nunca conseguiu recuperar do jet lag do Dubai.

 

Fez 32 anos e está há um ano sem clube, treinando-se com os jogadores do sindicato para ter mais tempo livre e menos responsabilidades para ir às festas à noite e fazer churrascadas com VIP’s de dia.

 

Tem 33 anos e quer lançar um livro para contar que está falido e que testemunhou muitos casos de corrupção no futebol e que, se alguém lhe pagar bem, ele conta tudo o que sabe. A Leonor Pinhão oferece-se como ghostwriter, a Carolina Salgado oferece-lhe apoio moral, mas o livro nunca vê a luz do dia porque entretanto a editora que o ia publicar faliu.

 

Aos 34, faz um jogo de despedida que passa, mais ou menos, despercebido à imprensa, excepto à Dica da Semana. Pendura as chuteiras. Aceita um convite para entrar num reality show pois isso vai trazer-lhe algum dinheiro e alimentar o seu sonho de enveredar por uma carreira de DJ.

 

Aos 36 anos, já ninguém sabe quem é este artista da bola, apesar de ter virado comentador de futebol na rádio da sua aldeia natal.

22.Out.17

Quero Eleições no Céu

Sérgio Ambrósio

Esqueçam o fim da Geringonça, esqueçam as eleições na Catalunha, esqueçam a queda do Trump. Devíamos era concentrar-nos no dono disto tudo. Eu queria ver Deus sendo um homem normal, daqueles que anda de metro, trabalha, atura crianças e ainda tem que pagar impostos. Que reza a um deus que Lhe faz orelhas moucas. Nós, por cá, ainda vamos tendo eleições de 4 em 4 anos, agora no Céu… Eleições? Está quieto. É vitalício. Mais ninguém pode governar aquilo.

 

Está na hora de encostar Deus à parede. Ou Ele nos ouve e cumpre as nossas preces e as Suas promessas ou então é hora da humanidade tirar Deus do poleiro. 2017 anos depois da maior campanha de marketing político da História, Deus foi eleito para governar os destinos da Terra e a sua governação é o que se vê: uma santa bandalheira.

 

Depois, promete que vem à Terra compor as coisas e nada. O que se vê é inércia. Ele lá no Seu gabinete de nuvem, bem confortável, com os Seus secretários de Estado, a ver aqui a gente a lixar-se feito mexilhão. E o curioso é que Deus não tem greves gerais contra Ele. Mas onde é que está o Sindicato da Humanidade quando a gente precisa dele? É só sindicatos para os polícias, enfermeiros e professores, é? E os humanos, em geral, não têm sindicato porquê?

 

Deus propicia carreiras de escravidão e não há manifestação nas ruas contra Ele. Isto está tudo errado. Isto não devia ser uma guerra santa entre cristãos, muçulmanos e judeus. Todos se deviam unir e ir à manifestação contra Deus, exigindo que ou Ele governa a Terra bem ou tem que se empandeirá-Lo de lá para fora.

 

A questão é a democracia em falta no Céu. É a Deus que devemos pedir responsabilidades. A Ele é que devíamos dizer: “demita-Se, a Sua insensibilidade e inoperância não podem mais ser toleradas!”. Eu, por exemplo, jamais perdoarei a Deus por me fazer ver o Porto passar 4 anos de jejum no futebol. O meu voto não leva mais. A Sua Santidade invisível e omnipresente vai ter de enganar outro.

 

E é isto que chateia: é omnipresente e mesmo assim não faz caso das desgraças. Podia pensar: “olha, está aqui esta floresta a arder, vou deitar a mão a isto.” Não. Está quieto o menino. Não pode pegar numa mangueira. “Olha este indivíduo perdido de bêbado a conduzir, vai sair da rodovia e vai-se enfaixar naquela parede de betão! Se calhar, podia usar os meus poderes e fazê-lo parar ou então transformar aquela parede de betão numa parede de espuma. Ah, não, espera, eu só disse à humanidade que transformava água em vinho, não vou estar agora aqui armado em salvador”. De modo que é isto. Se querem falar de eleições, ao menos, falem das eleições verdadeiramente importantes.

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