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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

30.Nov.17

Moda na Passadeira

Sérgio Ambrósio

E aquelas pessoas que atravessam a rua, na passadeira, mas pensam que estão a desfilar na passarela? Era metê-las a todas num contentor de um navio e pô-las a desfilar em Nova Iorque, não era? Não. Porque depois os nova iorquinos iam ficar, com razão, chateados por lhes impingirmos estes portugueses foleiros.

 

Estou seriamente a pensar deixar de parar nas passadeiras. Eu vou dar prioridade ao meu egoísmo porque não estou a conseguir digerir a quantidade de pessoas que se atravessam à frente do meu carro e têm uma atitude de vedeta pior do que as modelos da Victoria’s Secret.

 

Quando eu paro o carro, na passadeira, as pessoas devem pensar que eu vou sacar da minha máquina fotográfica profissional e que elas têm que se pôr em pose, funcionando como manequins, numa sessão de moda, para que depois, no dia seguinte, as fotos saiam na revista Vogue ou na Nova Gente.

 

Ou então, quando atravessam, devem julgar que sou um caça-talentos e elas têm de dar o melhor de si, desfilando pausadamente, para que eu lhes veja a graciosidade e a tarimba exigidas e lhes ofereça, logo ali, um contrato profissional de modelos.

 

Pessoas, eu não sou o Luís Buchinho, nem o Nuno Gama, eu só quero que vocês atravessem a rua, sem exibições, e desamparem-me a loja. Se querem que alguém aprecie o vosso outfit e a vossa destreza como manequins, mandem os vossos vídeos ou fotos para o Polícia da Moda da CMTV, por favor.

 

As pessoas metem-se na passadeira com a altivez de quem está a desfilar para a Dolce & Gabbana ou para a Gucci e nós temos que ser aquelas pessoas que estão na plateia dos desfiles de moda, com uma sumptuosa cara de tanso, a ver as tendências da nova estação.

 

Estas pessoas, que param o trânsito, não deviam agradecer por deixarmo-las passar. Deviam agradecer o facto de não termos tendências assassinas e de não arrancarmos com o carro contra elas, ao mínimo tique de exibicionismo à pavão. Bolas, que as passadeiras, na rua, estão mais apinhadas de pseudo-manequins do que o Instagram.

 

Deviam abrir menos agências de modelos e mais agências que dessem formação a peões para caminhar sobre linhas brancas pintadas no alcatrão. Atravessar a rua como pessoa normal, de tão raro, devia dar como recompensa a Ordem do Infante. Atravessar a rua como imitadora da Sara Sampaio devia dar multa e apreensão da carta de transeunte.

 

Quando virem a notícia, no Telejornal, de um lunático que entrou de carro na passarela do Portugal Fashion, nada temam, mantenham a calma, não foi nenhum acto terrorista. Sou apenas eu a vingar-me. Porque se a passadeira da estrada é lugar para manequins, então a passarela do Portugal Fashion é lugar para eu estacionar o meu veículo de quatro rodas.

29.Nov.17

Desculpa o Meu Coração

Sérgio Ambrósio

Deves achar estúpido estar a comunicar por crónica, em vez de te falar pessoalmente. Mas quero que a internet seja minha testemunha. Espero que não te importes. É que, hoje em dia, é mais difícil encontrar uma testemunha credível do que um fiador para comprar casa. E não parece que a internet me vá deixar ficar mal.

 

Na verdade, não posso dirigir-te a palavra, de modo sonoro, porque não atendes o telemóvel se vires nele o meu número com o nome "Estupor" lá gravado. Assim, esta é uma forma de não te fazer passar pelo suplício de ouvires a minha voz irritante. Eu nunca quis fazer-te menos do que bem. Mas é certo que ouviste muitos disparates lançados pela minha boca vil, pelos quais me penitencio e seguramente, devido a eles, vou ter que prestar contas no purgatório.

 

Nem sei como tiveste paciência para me aturares. Tem dias em que só me apetece afogar o eu que mora dentro de mim. Mas mesmo bebendo litradas de chã, ele não falece. Só não experimento lixívia porque dizem que isso faz mal ao estômago. E quero assassinar o eu chato que vive dentro de mim e não o inocente do órgão que me digere a comida.

 

Sinto-me o dono de uma daquelas casas, que se vêem nos filmes americanos, onde decorreu uma festa e eu só me preocupei que os convidados não me vomitassem no sofá, não partissem os móveis e não roubassem as toalhas do WC. Todos foram embora, todos se divertiram, ninguém ficou para me ajudar a arrumar a casa.

 

Até tu foste. E eu ingenuamente a pensar que ficavas, mesmo que não importasse a circunstância. Não tenho emenda a acreditar em mulheres como miúdos de 4 anos acreditam que é o Pai Natal que lhes traz os presentes, quando toda a gente sabe que é a Cofidis.

 

Em tantas ocasiões se procura a genuinidade num mundo onde as pessoas e os sentimentos são descartáveis. Não esperava que durássemos para sempre, apenas o tempo que Deus quisesse. Deus quis pouco tempo… Se calhar, precipitou-se. E agora somos nada. Exiges-me que eu tenha uma amnésia. Que eu te deite na reciclagem da minha memória. Não consigo…

 

Amor é só entender realmente que se foi feliz quando a relação acabou. Agora sei que era feliz, sei que era amor. Pensava que o meu coração era apenas uma nódoa escura dos tantos naufrágios de sentimentos que tiveram lugar no meu peito. Mas não era.

 

Tens de compreender, fiz apenas o que o meu coração mandou. Como vês, o meu coração é mais burro e pateta, em termos sentimentais, do que um saco de batatas. E agora, sou só eu novamente. Ainda bem que não afoguei o eu que vive dentro de mim. É chato mas, ao menos, faz-me companhia. Ainda assim, desculpa o meu coração. Uma besta de um coração, é certo, mas que foi feliz por ter batido, tantas vezes, por ti.

28.Nov.17

Gangues

Sérgio Ambrósio

O meu sonho sempre foi pertencer a um gangue. Mas ainda não sei onde se fazem as inscrições. “Ah, tens que ir à sede ou ao site de um partido político”, disseram-me. Mas isso é muito vago. E, mais relevante que tudo, eu não gosto de usar fato e gravata.

 

Indumentária à parte, os gangues, em Portugal, vieram para reinar. É a saída profissional que regista taxa de desemprego zero e, consequentemente, aquela que mais dinheiro dá. José Sócrates liderou um gangue e nunca passou pelo Centro de Emprego. Teve até umas férias de luxo, em Paris, e depois em Évora. Ricardo Salgado liderou um gangue e pagou para não ir preso, o finório! É preciso ser cauteloso para se escolher o gangue certo.

 

Por exemplo, eu adorava fazer parte de um gangue cómico, onde se inserem Woody Allen e Louis C.K., dois ídolos meus, mas abusar sexualmente de menores e masturbar-me à frente de mulheres sem o seu consentimento está fora de hipótese. Mas é um gangue fixe porque ganha-se muito dinheiro, conhecem-se mulheres lindas, não se vai preso e ainda se ganham Óscares. Para quem não tiver escrúpulos de natureza sexual, este gangue assenta lindamente.

 

Pertencer ao gangue dos multibancos era coisa para me atarantar o espírito. Trabalhar de noite ia afectar a já minha decadente qualidade do sono e andar a explodir caixas ATM é um perigo para a saúde dos tímpanos e ouvidos em geral. Além de que é um gangue que, de certeza, não está coberto com um bom seguro de saúde.

 

Entrar para um gangue que se dedique ao tráfico de droga é uma possibilidade que nem vale a pena considerar. Porque nunca fui bom a matemática e estar a lidar com quilos, doses, finanças, dinheiro, ia dar barraca, devido à minha pouca apetência para números e contas.

 

Posto isto, não sei em que gangue me inserir. Só vejo toda a gente, sem dúvidas, a entrar nos gangues dos seus sonhos e a realizar-se pessoal e profissionalmente. E eu, neste limbo, incapaz de tomar uma decisão por sentir que não me enquadro nos gangues existentes. A solução seria talvez fundar um novo gangue. Algo que fizesse falta. Talvez lhe pudesse chamar Gangue das Pessoas Sem Gangue. Mas é pouco apelativo, acho. Ninguém iria querer inscrever-se neste gangue.

 

Já sei: que tal Gangue Humanitário, em que a principal actividade fosse a decência? Não seria espectacular?! Eu acho que tinha potencial para juntar milhões de membros e conquistar território aos gangues de mauzões que circulam por aí. O Gangue Humanitário podia ser o gangue mais numeroso do mundo, impondo as suas leis, mandando nesta porra toda e limpando o sebo a todos os gangues de escumalha que por aí andam. Olhai que devia ser espectacular ver este gangue a reinar o mundo!

 

Quem sabe, um dia, alguém se dá ao trabalho de fundar um gangue que valha a pena. Fica a dica. Até lá, continuo sem pertencer a um gangue. Mas a esperança é a última a morrer... Já agora, se é a última a morrer, quem é que lhe faz o velório, coitada?

27.Nov.17

Tenho de Escrever?

Sérgio Ambrósio

Podia estar a namorar. Podia estar a passear junto à praia. Podia estar no cinema. Podia estar a consumir drogas. Podia estar a coscuvilhar os meus vizinhos. Mas não. Troco toda uma actividade potencialmente prazerosa pelo ofício de escrever. Desta vez, escrevo para responder ao desafio da Catarina Duarte do blog (in)sensatez.

 

Escrever é doloroso, sofre-se, sua-se, desiludimo-nos, esforçamo-nos, tentamos a superação, avançamos, recuamos, apagamos, duvidamos. Umas vezes, achamos que escrevemos o pior texto do mundo. Outras vezes, achamos que escrevemos algo engraçadito, que não faz Camões dar voltas, no túmulo, pelo trato dado à língua portuguesa.

 

Não é escrever que é prazeroso. O resultado da escrita é que é agradável, é um alívio. É o cumprir-se uma missão, não se ter desistido, é a coragem de se mostrar um produto que advém do labor com as palavras, do pensamento, da tentativa e erro e da nossa imaginação.

 

Escrever é a metáfora da vida: não podes ter medo, tens de ter o espírito aberto, tens de ser perserverante, tens de dar o máximo e o melhor de ti para que coloques o ponto final e te sintas orgulhoso. Lutaste, sofreste, agoniaste, mas venceste se cumpriste o teu propósito de escrever, de te expressares, de comunicares, de criares.

 

Escrever faz-me respirar, faz-me amansar o vulcão que quer explodir no meu peito. Escrever faz-me querer ler mais, faz-me querer viajar. Escrever faz-me acreditar que ainda há esperança para o mundo e espaço para as pessoas serem melhores.

 

A minha escrita não vai mudar o mundo, nem Portugal, nem a minha rua. Mas pode mudar-me enquanto pessoa: fazer com que tolere melhor as angústias da vida ou compor o mundo à minha maneira. Além disso, pode ajudar a distrair alguém que me lê, provocar-lhe um pensamento, uma reflexão, quiçá, um sorriso nos lábios. É por isso que tenho de escrever: quero fazer bem aos outros, fazendo bem a mim mesmo.

 

O sinal maior de que preciso de escrever é que, se eu não o fizer, a minha vida não existe, não se concretiza, não se realiza. Escrever é uma forma de dizer “eu existo, eu tenho opiniões, eu também sou palerma”. Escrever é uma forma delicada de pedir aos outros: «vá lá, gostem de mim, mesmo que eu seja um palerma, dêem-me palavras bonitas, tomem estas palavras, são para vocês, vêem como sou generoso?». É um toma lá, dá cá.

 

A bem dizer, escrever não serve para nada de realmente importante. Reparem: não nos livra da morte, não nos cura das doenças, não faz com que Deus deposite um milhão de euros na nossa conta bancária. Portanto, escrever serve essencialmente para eu me sentir vivo. E, parecendo que não, isso é verdadeiramente importante para mim.

25.Nov.17

Imaginação

Sérgio Ambrósio
24.Nov.17

As Minhas Compras na Black Friday

Sérgio Ambrósio

Cheguei a pensar que, ir às compras, na Black Friday, ia ser um berbicacho, devido às multidões que tentassem disputar comigo alguma compra. Mas foi pacífico, ninguém se meteu comigo pois quando olhavam para mim era um homem de fato camuflado da tropa e de fuzil, na mão, que viam. Eis a minha lista de compras:

 

1 – Comprei um árbitro de futebol. Há tanta corrupção que eles chegam a vender-se por meia dúzia de tostões. Numa Black Friday, então, é quase de borla. Por 3 queijos da Serra da Estrela e um pacote de bolachas Maria, já comprei árbitro para o Porto x Benfica.

 

2 – Comprei o Filipe Augusto do Benfica. Estava à venda no OLX por 1 euro. Tive mesmo que comprar. Foi daquelas compras de impulso. É claro que ele é um perna-de-pau que não joga um carago. Mas quando marcar uma futebolada com os amigos sempre posso dizer: «trouxe este marreta para a minha equipa, não joga nadinha, eu sei, mas foi jogador do Benfica». Vou fazer uma figuraça ao impressionar os meus amigos com um profissional de futebol e depois sempre quis imitar o Jorge Mendes, mas não sabia como.

 

3 - Comprei um camelo. Como eles aguentam vários dias sem beber água, e estamos em seca, e os combustíveis fósseis, como o petróleo, estão a esgotar-se no planeta, já estou a pensar no futuro e este camelo vai ser o meu novo transporte para substituir o carro. Dei-lhe o nome de José Nuno Martins.

 

4 - Comprei um político. Não foi um preço baixo mas como era Black Friday tive que aproveitar porque nunca se sabe quando vamos precisar de um político para nos fazer um favor de monta.

 

5 - Comprei um jantar no topo da Torre dos Clérigos. Era para ser na sacristia do Mosteiro da Batalha mas os preços estavam altíssimos. Temos que aproveitar a moda dos jantares nos monumentos nacionais.

 

6 - Comprei um piropo. Passou uma gaja gira por mim e eu disse: “posso elogiar-te?” E ela: “não que isso é assédio sexual”. E eu: ”oh que pena”. E ela: ”mas podes dar-me 10 euros e mandar-me um piropo que eu não faço queixa de ti”. E, deste modo, fiz a minha primeira compra de um piropo, numa Black Friday, chamando-lhe «capitalista».

 

7 - Comprei um lugar no Céu, não vá o diabo tecê-las. O padre foi simpático, não quis abusar de menores nem engravidar nenhuma mulher, tive apenas que gastar uns cobres na garrafeira do supermercado e negócio feito.

 

8 - Segui as dicas contidas no novo livro da Paula Bobone e comprei um novo criado: chama-se Carlos Areia, era actor, e já tem experiência de mordomo de quando trabalhava na série do Fernando Mendes “Nós os Ricos”.

 

9 - Comprei um rim a um paquistanês. Isto com a saúde não se brinca. A gente nunca sabe quando vai precisar de um dador de rins e assim já fico mais descansado. O gajo precisava de dinheiro para tratar do visto de estadia em Portugal e vendeu-me o rim baratinho. Só espero que ele não me tenha aldrabado e seja mas é terrorista e vá usar o dinheiro que lhe dei para comprar bombas.

 

10 - A Black Friday podia ter sido perfeita se eu tivesse conseguido comprar umas piadas à Joana Machado Madeira. Ela foi irredutível e disse que não vende. Mais, disse que nunca teve piadas, nem para vender nem para dar, sequer. Fiquei desconsolado. Quis vender-me banha por 20 euros o quilo. Delicadamente, recusei. Mas abriu-me a pestana: fiquei a saber que o principal requisito para trabalhar na TVI é não ter piada alguma. Afinal, ainda há esperança para mim!

 

E quem mais é que comprou coisas esquisitas nesta Black Friday? Confessem-se na caixa de comentários!

23.Nov.17

10 Razões Para a Má Champions do Benfica

Sérgio Ambrósio

1 - Os jogos do Benfica, na Champions League, não são apitados por árbitros portugueses.

 

2 - O Dr. Pedro Guerra não tem espiões na UEFA.

 

3 - O Benfica tem 30 jogadores no plantel mas nenhum deles é guarda-redes.

 

4 - Não deixam jogar o Gabigol.

 

5 - Rui Vitória anda a ler mais livros de auto-ajuda do que a analisar como jogam as equipas adversárias.

 

6 - O melhor jogador do Benfica está emprestado ao Besiktas: Talisca, claro.

 

7 - Luís Filipe Vieira não abriu os cordões à bolsa e não comprou nem jogadores de jeito nem bruxos competentes.

 

8 - Centrais em idade de reforma: se era para jogar com defesas centrais velhos mais valia terem metido o Mozer e o Humberto Coelho, em vez do Jardel e do Luisão.

 

9 - Eliseu, desde que aprendeu a andar de scooter, nunca mais atinou a ser defesa-esquerdo.

 

10 - Como se vê pela fragilidade deste plantel, Rui Vitória jamais deveria ter dispensado o apanha-bolas Ola John, o barman Taarabt e o cantor Victor Andrade.

22.Nov.17

Jantares de Natal

Sérgio Ambrósio

Está oficialmente aberta a época nas churrasqueiras e tascas do país. Para nós, portugueses, qualquer pretexto é bom para comer e beber. Já não basta a noite de consoada, em que comemos como bisontes, que ainda temos que ir antes do Natal aconchegando o estômago com jantares diversos em grupo.

 

Ele é jantares de empresa, jantares do ginásio, jantares dos amigos, jantares dos ex-colegas de creche. Dezembro é, sem dúvida, o mês do ano em que mais dinheiro se gasta em comida. É o que faz não termos um Passos Coelho que nos acabe com o subsídio de Natal e nos ponha a apertar o cinto, é o que é.

 

E para quê tanta jantarada? «Ah e tal, é a tradição, é Natal, temos de nos reunir e fazer jantares e comemorar e coiso». Tudo bem, mas sabem que quem ganha com isto é apenas o comércio e a restauração, certo? É que, no máximo, podem ganhar mau colesterol e uma úlcera no estômago, mas fora isso só perdem. Principalmente várias notas de 20 euros.

 

Eu quero revolucionar o mundo e nada melhor do que começar por eliminar isto dos jantares de Natal. Já chega, já cansa, é sempre a mesma coisa. Já sabemos que a Rita vai ficar bêbada em menos de 5 minutos. É garantido que o Carlitos vai querer armar-se em campeão das misturas do álcool e vai vomitar nos sapatos de alguém. E é certinho que, no fim, toda a gente vai chegar a casa arrependida de ter ido, porque gastou dinheiro no jantar, gastou dinheiro em gasolina, teve de aturar bêbados e ainda estragou uma camisola com nódoas de vinho.

 

Nos jantares de Natal, normalmente, há dois tipos de disputas: quem fica mais borrachão ou quem conta as piadas mais secas. Quase sempre uma coisa está relacionada com a outra. Quanto mais molhada de álcool estiver a garganta de alguém mais hipóteses há dessa pessoa contar piadas mais secas do que as que conta o João Baião na SIC.

 

Outro fenómeno perfeitamente evitável são as trocas de prendas ou como se diz em linguagem natalícia: “troca de miminhos”. Quem é que não fica furioso quando compra um conjunto de pratos da Vista Alegre para entrar no sorteio de prendas e depois recebe umas pantufas de coelho da loja dos chineses? Que ainda por cima são de um tamanho mais pequeno do que aquele que realmente se calça? Não há espírito natalício que permita tal poder de encaixe, gente.

 

Eu proponho, a bem das carteiras e do bom funcionamento do fígado das pessoas, que se acabe com os jantares de Natal antes do dito Natal. Não sejamos mais papistas que o Papa. Na noite de Natal já nos consolamos de comer à fartazana. Por estes dias, fiquem-se por um pequeno-almoço de Natal com os vossos colegas, por uma lanchinho de Natal com os vossos amigos. Por uma troca de rebuçados ou de gomas como “miminho de Natal” e já está bom.

 

Eu sou agnóstico, não me convidem para celebrar, por antecipação, o nascimento do Menino Jesus. Pronto, está bem, eu vou ao raio dos jantares de Natal, mas com três condições: que sejam de borla, que não haja mais ninguém para contar piadas secas, a não ser eu, e que se realizem no Panteão. Não estou a ser muito exigente, pois não?
 

21.Nov.17

Orelha Negra

Sérgio Ambrósio

Recordação dos tempos em que fazia reportagens de concertos… O tempo voa… Mas a música de Orelha Negra continua em grande.

 

11/12/2010. Com a vinda de Dezembro, o frio enregela o corpo e são muitas as pessoas que procuram lojas de electrodomésticos para adquirirem aquecedores que lhes esquente os músculos e ossos. Mais fácil seria (e barato!) comprar o CD de Orelha Negra ou assistir a um concerto deles. O encontro com o calor seria uma garantia, existindo o bónus da quentura se alastrar à alma! No coração, o incêndio é, desde logo, inextinguível!

 

A HIPHOPulsação crew assistiu no Plano B, no Porto, pela primeira vez a um show de Orelha Negra. Não foi necessária uma grande ginástica mental para se perceber que a casa seria demasiado pequena para albergar todo o público que desejava sentir o groove dos cinco violinos. Perdão, cinco magníficos. De facto, o Plano B esteve rebentando pelas costuras, com muita gente a querer comprar ingressos à última da hora para o espectáculo e, ao invés do rectângulo mágico, deparou-se com um dilacerante “esgotadíssimo”!

 

Como referido, era difícil alguém conseguir mover-se no meio da assistência devido à elevadíssima concentração de corpos por metro quadrado. Muitos terão pensado: «Ó meu Deus, como é que eu danço agora?». A interrogação tem absoluta razão de ser. É que escutar a música de Orelha Negra e não se sentir imediatamente impelido a mexer a cabeça, tronco e membros, só está ao nível dos mais insensíveis à arte musical e dos portadores de veias de gelo, por onde não correm sentimentos e emoções.

 

Eis que os artistas irrompem pelo meio do público, em direcção ao palco (onde arranjaram espaço para abrir alas? Crê-se que os artistas têm uma faceta sobrenatural, mística, mas nunca pensámos presenciar in loco uma travessia de Orelha Negra semelhante à do Mar Vermelho!). Analogias à parte, certo é que a partir dali tudo foi felicidade. O espectáculo começou. Ali em cima, só a música. Dona e senhora da noite, a única boca dos artistas. Mais nenhuma outra se ouviu dos intervenientes. E ninguém se importou! Porque as colunas debitavam o lume último para nos levar à catarse através da embriaguez sonora e pelo escorrimento de suor pelo corpo.

 

Orelha calcorreou o seu disco, atiçando-nos a adivinhar qual era aquele sample ou aquela voz que saía da MPC e que nos estava ora na ponta da língua, ora debaixo dela, não nos ocorrendo o nome para verbalizá-lo... Mas em tudo, um intenso prazer a derreter-se como chocolate na língua dos nossos ouvidos! Não se estranhou que em palco estivessem não somente os cinco integrantes de Orelha Negra e toda a imensidão de gente que vive na sua música, mas também convidados especialíssimos como De La Soul ou Prince Paul ou The Whatnauts, Beyoncé e Jay-Z ou Rich Harrison ou Chi-Lites, Jake One ou Space, Noora Noor, MC Hammer, Snake...

 

Passou cerca de uma hora de concerto. Mais pareceu dois minutos. Acaba rápido o que é bom, não é? E em sessenta minutos tanta memória que fez clique dentro de nós! Um teclado, um baixo, uma bateria, uma MPC, uns Technics, funk de fino recorte, soul apaixonada, jazz chique, música portuguesa, samples, loops, breaks, tudo disposto numa paleta harmónica e nas mãos certas e engenhosas... Facho de vício que nos deixa os ouvidos e o corpo a ressacarem por mais uma experiência ao vivo com Orelha Negra!

20.Nov.17

Redes Sociais

Sérgio Ambrósio

Uns dizem que mostram o pior da humanidade; outros dizem que mostram uma falsa noção de felicidade e sucesso; para um pedófilo é Natal sempre que faz “iniciar sessão”.

 

Há quem diga que as pessoas se expõem muito nas redes sociais. Não tenho essa ideia. É muita gente a mostrar os seus bens materiais, as suas viagens e fotos do seu corpo, certo. Mas uma coisa eu nunca vi: nem uma só pessoa que tivesse tirado uma foto à sua alma.

 

As redes sociais são uma arma. Elas ditam qual o assunto com que devemos indignar-nos no momento. Eu hoje indignei-me com um gatinho que não fez nada de notável ou engraçado. Como é que alguém se atreve a meter um vídeo no Facebook onde o gato não nos saque, ao menos, três gargalhadas? Inqualificável, meus amigos.

 

O Facebook é a minha rede social favorita. Foi a minha segunda rede social depois do MySpace. O Facebook é bom porque, ao contrário da vida real, se te zangas com alguém não tens de andar à porrada, basta fazer o clique na opção “remover amizade”. É tudo mais simples.

 

O Twitter é curioso porque precisas de ter poder de concisão para te indignares em 140 caracteres. Sim, eu sei que já aumentaram o espaço de texto mas se há algo que não muda é a característica insolúvel de que o Twitter é perfeito para manifestações viscerais.

 

O Instagram é a cena mais fixe que há. Não me admira que a Playboy esteja nas ruas da amargura porque tudo o que é garota sarada anda a mostrar as curvas, em trajes bem arejados, no Instagram. As miúdas já não sonham em ser a capa da Playboy. Elas querem é ser patrocinadas pela Prozis.

 

Uma arma, um entretenimento, uma montra: as redes sociais podem ser isto e algo mais. Qualquer dia não se conta mais os anos pelo prisma antes de Cristo (a.C.) ou depois de Cristo (d.C.), o célebre Anno Domini. A datação da Era Moderna vai ser determinada pelo aparecimento das Redes Sociais (RS). Já estou a imaginar a minha lápide: “Nascido 10 anos a.RS, falecido 100 anos d.RS”. Ou qualquer coisa assim…

 

O meu Facebook, o meu Twitter, o meu Instagram.

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