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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

15.Out.17

A Brasileira do Badoo

Sérgio Ambrósio

Conhecemo-nos através de um clique mas depressa trocamos olhares na vida real. Não tem graça conhecer as pessoas somente pelo wi-fi da internet. Na verdade, eu só quero ter a certeza de que não estou a falar com um robot. Ou pior, que não estou a gastar o meu latim com um gajo que não tinha nada mais proveitoso para fazer do que criar um perfil falso.

 

Ao vivo, nunca é a mesma pessoa. Nas fotos, parecia mais gordinha. Nas mensagens, parecia mais extrovertida. No perfil, dizia que não queria aventuras. Mas lá estava ela metida no shopping prontinha para me olhar a alma de cima a baixo. Porque o que está em jogo é saber onde está a estupidez: se na pessoa que vamos conhecer ou em nós que marcamos o encontro.

 

O bónus acontece quando nenhuma das situações se verifica. Porém, senti-me enganado nos primeiros balões do nosso diálogo. Não aquela enganação de sacanice, propositada. Mas antes um equívoco gostoso, igual ao açúcar do português que ela falava. Eu dizia-lhe que aquele português não era de verdade. Porque português de verdade não tem sotaque. Ela irritava-se e eu gostava.

 

Catorze anos de moradia em Portugal deveria ser suficiente para se perder um sotaque. Não era o caso dela. Teimosa, orgulhosa, determinada, foram os únicos lugares comuns que achei nela. Em tudo o resto, a mais perfeita estranheza. Brasileira que não liga para futebol? Não pode. Brasileira que não gosta de funk? Não tem. Brasileira que nunca dançou créu? Não existe.

 

Eu tinha sido exigente no pedido ao Cupido mas nunca pensei que ele me pusesse a jogar à desconstrução de estereótipos. Brasileira que não bebe caipirinha? Não brinca. Brasileira que nunca assaltou ou foi assaltada? Impensável. Brasileira que não fala calão nem asneiras? Fica foda acreditar em alguém assim, que diz ser brasileira e depois não corresponde à formatação da sociedade.

 

A polícia isto não avisa: “cuidado, cidadão, que nas redes sociais pode encontrar brasileiras de nacionalidade mas travestis de costumes, depois de as conhecer na realidade”. Deixei o melhor para o fim. Com tanto desenraizamento, acabamos por unir as nossas bocas. Talvez para silenciar as diferenças, driblar a estranheza e dar calor à carência. Agora percebo a indignação de muitas pessoas com as redes sociais. É que elas nunca se desconectam e deixam sempre a estupidez ligada. Pior: é que elas sempre generalizam e nunca acreditam que podem mesmo encontrar uma pessoa diferente de todas as outras. É pena, só perdem.

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