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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

23.Out.17

A Carreira de um Artista da Bola

Sérgio Ambrósio

Percebe-se que o feto pode tornar-se num grande jogador de futebol quando os pontapés que dá na barriga da mãe têm um efeito de folha seca ou trivela.

 

Quando nasce, o pai põe-lhe uma camisola do seu clube e o bebé, num acto de ternura e agradecimento ao progenitor, beija a camisola.

 

Aos 2 anos de idade, o artista da bola parece que está a aprender a andar mas as pernas bambas são apenas um modo de treinar o cavamento de faltas à entrada e dentro da grande área.

 

Aos 4 anos de idade, ainda não sabe ler nem escrever nem fazer contas mas já devorou todos os livros do Luís Freitas Lobo porque os pais liam para ele antes de adormecer. Além disso, o craque já viu todos os Mundiais de futebol em DVD e já assistiu no YouTube às grandes finais da Champions League e a todas as temporadas do Tsubasa.

 

Aos 5 anos de idade, entra para a equipa de futebol da terrinha e torna-se num número 10 e capitão da equipa. Já tem um cântico em sua homenagem.

 

Aos 6 anos, já tem o Porto, Benfica e Sporting atrás dele mas como ainda tem amor à camisola e aos amigos permanece no clube da terrinha.

 

Aos 7 anos, esquece o amor à camisola e aos amigos e assina um contrato com um empresário que lhe arranjará uns testes na academia do Barça ou do Real Madrid porque o nosso artista da bola já tem namorada e em Espanha ganha-se mais dinheiro para se poder constituir família.

 

Aos 10 anos, já passou o sonho do Barça e do Real porque ele afinal não percebe nada de castelhano e, além disso, os espanhóis não gostam dos portugueses. Também já estava com saudades da comida da mãe.

 

Aos 12 anos, já vai na décima namorada e já tem um clube de fãs com página no Facebook e vários vídeos de golos e habilidades espalhados pelo YouTube. Já assinou por um clube grande português mas está emprestado ao clube da terrinha porque ainda é baixinho em comparação com os africanos e brasileiros matulões com data de nascimento falsificada.

 

Aos 15, já passa mais tempo nos bares e discotecas do que nos treinos no campo de futebol. O mister desculpa-lhe as bebedeiras e mete-o sempre a titular nos jogos porque ele é o craque da equipa.

 

Aos 16 anos, atina e leva o futebol mais a sério porque sabe que está a um passo de assinar um contrato profissional. Está de novo num clube grande de Portugal.

 

Aos 18, estreia-se pela equipa principal e para festejar o feito cheira as primeiras linhas de cocaína.

 

Aos 20, já é titular no clube e é chamado à selecção A porque o presidente da Federação devia um favor ao seu empresário. O seu passe já vale o triplo.

 

Aos 22, tem o Arsenal, o Dortmund e a Fiorentina à perna mas nenhum destes clubes quer pagar 5 milhões de euros ao seu empresário como comissão.

 

Aos 25, é gozado pelos companheiros de equipa por ainda não ter saído de Portugal para um grande campeonato europeu. Refugia-se no álcool para esquecer essa frustação.

 

Aos 27, acabou contrato com o grande clube português e não quer renovar. Porém, só tem como clubes interessados nos seus serviços o Elche, o Ossassuna, o Sassuolo, o Reading e o Cretéil Lusitanos. O empresário continua inflexível em querer receber os seus 5 milhões de euros em comissão.

 

Fez 28 anos e assinou pelo Basileia, que foi o único clube a atender ao pedido do empresário. O nosso craque aceita jogar na Suíça porque tem lá família emigrada e o Basileia está a jogar a Champions.

 

Aos 29, muda-se para um clube do Dubai pois não se adaptou ao frio da Suíça. O dono do clube dá-lhe um ordenado chorudo, mais um Porsche, dois camelos e um cartão vitalício para encher o depósito com gasolina à borla.

 

Aos 31, regressa para um clube mediano em Portugal mas passado quatro meses rescinde com o clube devido a salários em atraso. Fez só dois jogos como suplente utilizado porque nunca conseguiu recuperar do jet lag do Dubai.

 

Fez 32 anos e está há um ano sem clube, treinando-se com os jogadores do sindicato para ter mais tempo livre e menos responsabilidades para ir às festas à noite e fazer churrascadas com VIP’s de dia.

 

Tem 33 anos e quer lançar um livro para contar que está falido e que testemunhou muitos casos de corrupção no futebol e que, se alguém lhe pagar bem, ele conta tudo o que sabe. A Leonor Pinhão oferece-se como ghostwriter, a Carolina Salgado oferece-lhe apoio moral, mas o livro nunca vê a luz do dia porque entretanto a editora que o ia publicar faliu.

 

Aos 34, faz um jogo de despedida que passa, mais ou menos, despercebido à imprensa, excepto à Dica da Semana. Pendura as chuteiras. Aceita um convite para entrar num reality show pois isso vai trazer-lhe algum dinheiro e alimentar o seu sonho de enveredar por uma carreira de DJ.

 

Aos 36 anos, já ninguém sabe quem é este artista da bola, apesar de ter virado comentador de futebol na rádio da sua aldeia natal.

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