Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

28.Out.17

A Moça do Shopping

Sérgio Ambrósio

Tenho pena da moça que vende cartões de crédito no shopping. Se não fosse chata, eu pararia. Porque toda a gente a evita como se ela tivesse uma doença contagiosa. E via-se o desalento no seu olhar por não conseguir impingir aquela treta a ninguém. Ela era muito gira. Se eu não quisesse curtir a minha solidão deixaria que ela me abordasse só para lhe fazer companhia. E ela a mim.

 

Imagino-a, à noite, quando chega a casa, depois do trabalho, a perguntar-se o porquê das pessoas fugirem dela como o diabo da cruz. Talvez chore. Talvez o namorado lhe diga palavras bonitas para a animar. Por certo, ela pensa que vai arranjar um trabalho melhor, em que as pessoas não tenham como fugir dela. Tipo caixa de hipermercado ou funcionária das finanças. Não há como evitá-las.

 

Aquelas vendas são irritantes porque não são feitas de forma tradicional. Não é o cliente que vai ter com o vendedor para comprar o produto. É uma venda de guerrilha em que o vendedor procura surpreender o potencial cliente e pregar-lhe um constrangimento que o leve a adquirir uma cangalhada que nunca pensou comprar na vida.

 

Talvez aquela jovem sonhe, um dia, ser apresentadora de televisão. Assim, dirá aos seus botões que vender cartões de crédito no shopping é o seu estágio curricular obrigatório. Primeiro, a tarefa dura de lidar com as pessoas presencialmente, saber manipulá-las, contorcer-lhes a inocência e sacar-lhes o dinheiro. Depois, quando ganhar o traquejo necessário, florescerão rosas no seu sorriso a apregoar na TV o 760 300 900 e o glamour da sua presença terá o magnetismo de fazer com que milhares de pessoas disquem o número, sem que ela tenha de olhar na cara feia das pessoas nem de lhes sentir o bafo azedo nem de levar com o seu desdém.

 

Fiquei curioso sobre o que terá de especial aquele cartão, que parece ser oferecido, mas que deve trazer uma carrada de juros para nos emagrecer a conta bancária. Será que seria mais feliz se fosse dono daquele cartão? Acho que não. Só me traria problemas provavelmente. Fico a pensar no que a moça faz aos cartões que não vende. Se for esperta, rouba-os para compensar as horas tristes do trabalho que lhe paga um cheque para a infelicidade. Se for justa, divide comigo os lucros devido à minha empatia para com ela e dedicatória desta minha crónica.

44 comentários

Comentar post

Pág. 1/2