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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

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14.Out.17

Entrevista à cadeira da AG do Benfica

Sérgio Ambrósio

Agora que a poeira assentou, consegui um exclusivo que nem o Correio da Manhã pensou ser possível. Pois é, meus amigos, alguém tem de fazer o que realmente importa para este país ir para a frente e eu consegui uma entrevista com a cadeira que foi agredida na última Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica.

 

Eu: Antes de mais, obrigado por conceder esta entrevista a este modesto blog… Conte como está de saúde. Está melhor?

 

Cadeira: De nada, eu estou aqui para servir o povo naquilo que me for possível. Menos ser usada para rachar cabeças de pessoas. Foi isso que aconteceu e, além das mazelas físicas, ainda estou muito martirizada psicologicamente. Já ando a fazer contas à minha vida e, se calhar, vou ter que gastar umas economias no Bruxo de Fafe para ultrapassar este meu mau bocado.

 

Eu: Então ainda não regista melhorias?

 

Cadeira: Nem por isso, sabe. Saí hoje de manhã da Urgência do Senhor Armando Carpinteiro, que tratou de mim e me deu alta, mas ainda sinto umas fisgadas de dor aqui no meu tampo de madeira. Por isso, é que estou a tomar providências para ir ao Bruxo de Fafe. É que ninguém me tira da cabeça que isto foi bruxedo que me fizeram.

 

Eu: Lembra-se do que aconteceu naquela fatídica noite?

 

Cadeira: Sim, claro que lembro. Fui violada, foi o que se passou. Agrediram-me, chamaram-me muitos nomes, abusaram de mim e ainda me mandaram ao ar como arma de arremesso para aleijar lá o senhor a quem eles queriam bater. Deixaram-me aqui toda partidinha. E olhe que eu não fui lá para arranjar confusões com ninguém. Lembro-me de estar sossegadinha com um senhor de 70 e tal anos bem refastelado em cima de mim, quando sinto uma momentânea leveza. Ou seja, o senhor levantou-se. Nisto vem um jovem musculado, que se babava muito devido à raiva, e eu pensei: «valha-me Nossa Senhora da Resina que estou aqui tão sossegada com o velhote e vem este atrevido dar-me cabo da estrutura». E foi isso, o jovem pega em mim com aquelas mãos todas gordurosas, nem teve a delicadeza de as limpar antes de tocar em mim, e zás, levanta-me ao ar e atira-me para cima lá do senhor que pertence à direcção do Benfica.

 

Eu: E o que sentiu nessa altura?

 

Cadeira: Primeiro, umas vertigens medonhas… Na maternidade onde nasci, na fábrica da Ikea em Paços de Ferreira, queriam que eu fosse uma cadeira de avião, que era muito bom, que só laureava a pevide e tal mas não quis. O meu sonho sempre foi o futebol. Sempre quis fazer carreira no futebol. De modo que me sinto e senti-me muito desiludida. Senti uma enorme vergonha em ter aleijado o senhor, coitado, que foi para o hospital e tudo. Pedi-lhe muita desculpa e que a culpa tinha sido daquele brutamontes, que foi um cobardolas. Se ele fosse corajoso ia lá ele agredir o senhor, não me mandava a mim, ora essa!

 

Eu: Então a senhora não é adepta de violência…

 

Cadeira: Não, nada, nada. Eu até tenho umas primas minhas emigradas em França e elas estiveram a trabalhar nas esplanadas de bares, em Marselha, quando foi aquilo do Euro 2016. Coitadas, viram a morte à frente delas quando se deu aquele conflito dos hooligans russos contra os ingleses. Elas ficaram todas partidas. Eu, que já era contra a violência, quando soube dessa história até fiquei doente. Nossa Senhora da Resina me livre. Aquilo é que foi um atentado terrorista contra as cadeiras… Mas está a ver, a gente aqui em Portugal, em paz, e de repente vêm estes meliantes inquietar-nos. É por isso que eu digo, rogaram-me alguma praga.

 

Eu: Pondera voltar ao Benfica quando estiver totalmente recuperada?

 

Cadeira: Neste momento, estou a pensar no que vou fazer da minha vida. Amanhã devo telefonar aos meus advogados a ver se é possível entrar com algum pedido na justiça para ver se, ao menos, pagam os curativos que tive que fazer no Senhor Armando Carpinteiro. Mas não devo querer voltar ao futebol. Estou muito transtornada. E eu fiquei para a minha vida, sabe! Eu não sabia que o presidente do Benfica era tão dado a dizer asneiras. É um malcriadão! Fiquei embaraçada, já nem se respeita as senhoras e eu com tantos anos de dedicação àquela casa. Olhe que no tempo do Senhor Manuel Vilarinho havia mais respeito. Pronto, de vez em quando ele também soltava o seu palavrãozito mas aquilo já não era ele a falar era mais o vinhito.

 

Eu: As melhoras e felicidades para o futuro.

 

Cadeira: Olha lá, rapaz, tu é que me podias arranjar emprego lá na tua casa…

 

Eu: Gostava muito mas não dá. Já tenho lá tudo cheio.

 

Cadeira: Então e no teu blog não precisas de uma cadeira?

 

Eu: Não propriamente. Preciso de si para a entrevista mas não preciso de si para me sentar. Até porque o blog fica num espaço virtual na internet, como deve calcular.

 

Cadeira: Raios partam estas modernices que só tiram trabalho à gente.

 

Eu: Então adeus!

 

Cadeira: Vai lá, rapaz, que eu vou para casa fazer umas posições de ioga a ver se a dor alivia.

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