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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

09.Nov.17

Eu e Tu

Sérgio Ambrósio

A tarde acelera e o tempo transforma-se bruscamente. O céu amulata-se, mal humora-se, fazendo supor que não deixa ninguém entrar no Paraíso. Eu corro na urbe, em frenesim e em pecado, para encontrar o corpo do meu corpo, a pessoa da minha pessoa. Mas quem és? Eu só sei que tu não tens nome.

 

Uma nuvem, supostamente de sonho, destila sobre mim fresca chuva de sedução. Derreto no calor tropical do teu charme como um chocolate no contacto com a língua. Estala-me o sentimento no cume da pele. O barulho da carne a tocar-se, a excitar-se na combustão dos sentimentos. A acutilância da paixão. O furor do que sinto será sempre mais forte do que aquilo que eu possa dizer. A limitação da boca de um homem. Flameja a água do meu corpo. Suo por ti. As minhas mãos já não existem, são duas lagoas que se formam no vazio do teu vulcão.

 

Acalento-me por entre as frinchas da tua carne com a alma. O meu corpo na exigência dum pecado que o diabo não pode atender. Nesse pânico que faz rodar as órbitas em lume, anseio pernoitar na tua companhia, na seda do teu abraço, na constelação dos teus dedos. Tenho quilates de sentimento para te oferecer, aqui, nas imediações do prazer. Toma-me na tua pele.

 

Pendura a tua roupa e, despida de perjúrios, incendeia a atmosfera sem paredes onde decido albergar-te. Sê joanina ou genuína. Não tenho preferência. Inova no fetiche, sê breve como um orgasmo e diz que ontem amaste-me. Quase acreditarei. A bondade do meu espírito dá-me vómitos. O teu coração não me obedece. Nem a mim nem ao desejo latente que me habita. O sonho tem dois lados, no meio não sobra nada. Eu e tu. Qualquer coisa falha…

 

Eu já vi este filme de sentimentos. Tu vens com o teu ar de triunfadora, alicias-me e vais embora. Deixas-me com o coração nas mãos. Ele morre pelas palavras que lhe arranquei. Com o pôr-do-sol intensifica-se a carga dramática de não poder viver sem aquela luz que vejo extinguir-se à minha frente, num espectáculo de glória trágica. A demência das palavras soturnas, despidas de veias. O crepúsculo que vem como um castigo de juiz brando.

 

Todas as minhas certezas são castelos de areia. De repelão, um grito a bater na chapa da minha intuição anuncia o colapso. A alma cai-me corpo abaixo e só pára enrodilhada nos meus pés. Amar é mesmo um trapézio sem rede.

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