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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

05.Nov.17

Felicidade com Letra Minúscula

Sérgio Ambrósio

A felicidade é tramada. Porque a tua felicidade entristece outros. E tu ficas triste por ver outros tristes por causa da tua própria felicidade. Mais vale não ser feliz, de todo, para não causar incómodos a ninguém.

 

Quando estás feliz, alguém há-de empurrar-te para baixo. Porque estás a tapar o sol deles. E, como toda a gente sabe, o sol quando nasce é só para os invejosos. Porque para os felizes, o sol nem sequer vai à cama dormir, é insónia crónica e abençoada a tempo inteiro.

 

O teu sorriso pode provocar lágrimas e preocupação a alguém. Não te atrevas. Pára já, carago. A polícia devia prender quem se atreve a ir ao dentista só para se rir mais branco na cara dos outros.

 

A felicidade dói. Porque tens que ser infeliz primeiro. E normalmente isso dura imenso tempo. Às vezes, quase todo o tempo de uma vida. Mas os médicos recomendam que vale a pena tentar mesmo não havendo analgésicos no mercado para tal maleita.

 

Na televisão vendem Calcitrin. Mas quem quer ter ossos fortes em vez de ossos felizes? Dão dinheiro em cartões para se comprar o que se quiser. O pior é que nunca vi a felicidade exposta numa montra. Nem mesmo em Amesterdão.

 

Ser feliz é conseguires ficar indiferente quando os outros se irritam e se desunham com a tua felicidade. Esse é o segredo. E isso é o difícil. Porque ninguém consegue guardar um segredo. Se te irritas porque os outros se irritam com a tua felicidade, então vais vê-la a correr veloz pelo cano do esgoto abaixo.

 

A felicidade é tão importante que chega mesmo a causar divórcios entre casais. Leva a que se rasguem laços de amizade, chegando ao cúmulo de, muitas vezes, a felicidade passar muito por não se ter família sequer.

 

Se achas que não faz sentido seres feliz sozinho, não mereces habitar um corpo humano, quanto mais servires-te de outro corpo humano para dele retirares prazer. A felicidade é tão valiosa que nem os bancos possuem segurança suficiente para guardá-la nos seus cofres.

 

O mal da felicidade é que ela sempre acaba. O mal de te rires, à frente dos outros, é que há sempre alguém que te quer partir os dentes. A felicidade até é um nome próprio, não vá ser essa a única hipótese da pessoa tê-la.

 

Se eu tivesse coisas valiosas para deixar num testamento, eu deixava a felicidade para alguém usufruir dela. Mas antes de morrer e deixá-la num testamento, vou ali à selva da vida ver se a encontro. Porquê? Porque perdi-a, outra vez. Ando sempre a perdê-la como quem perde guarda-chuvas, vezes sem conta, no autocarro. Se calhar, vou mas é aos perdidos e achados da PSP, a ver se alguém encontrou a minha felicidade, com letra minúscula. E, com pena de mim, a tenha entregue às autoridades.

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