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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

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28.Nov.17

Gangues

Sérgio Ambrósio

O meu sonho sempre foi pertencer a um gangue. Mas ainda não sei onde se fazem as inscrições. “Ah, tens que ir à sede ou ao site de um partido político”, disseram-me. Mas isso é muito vago. E, mais relevante que tudo, eu não gosto de usar fato e gravata.

 

Indumentária à parte, os gangues, em Portugal, vieram para reinar. É a saída profissional que regista taxa de desemprego zero e, consequentemente, aquela que mais dinheiro dá. José Sócrates liderou um gangue e nunca passou pelo Centro de Emprego. Teve até umas férias de luxo, em Paris, e depois em Évora. Ricardo Salgado liderou um gangue e pagou para não ir preso, o finório! É preciso ser cauteloso para se escolher o gangue certo.

 

Por exemplo, eu adorava fazer parte de um gangue cómico, onde se inserem Woody Allen e Louis C.K., dois ídolos meus, mas abusar sexualmente de menores e masturbar-me à frente de mulheres sem o seu consentimento está fora de hipótese. Mas é um gangue fixe porque ganha-se muito dinheiro, conhecem-se mulheres lindas, não se vai preso e ainda se ganham Óscares. Para quem não tiver escrúpulos de natureza sexual, este gangue assenta lindamente.

 

Pertencer ao gangue dos multibancos era coisa para me atarantar o espírito. Trabalhar de noite ia afectar a já minha decadente qualidade do sono e andar a explodir caixas ATM é um perigo para a saúde dos tímpanos e ouvidos em geral. Além de que é um gangue que, de certeza, não está coberto com um bom seguro de saúde.

 

Entrar para um gangue que se dedique ao tráfico de droga é uma possibilidade que nem vale a pena considerar. Porque nunca fui bom a matemática e estar a lidar com quilos, doses, finanças, dinheiro, ia dar barraca, devido à minha pouca apetência para números e contas.

 

Posto isto, não sei em que gangue me inserir. Só vejo toda a gente, sem dúvidas, a entrar nos gangues dos seus sonhos e a realizar-se pessoal e profissionalmente. E eu, neste limbo, incapaz de tomar uma decisão por sentir que não me enquadro nos gangues existentes. A solução seria talvez fundar um novo gangue. Algo que fizesse falta. Talvez lhe pudesse chamar Gangue das Pessoas Sem Gangue. Mas é pouco apelativo, acho. Ninguém iria querer inscrever-se neste gangue.

 

Já sei: que tal Gangue Humanitário, em que a principal actividade fosse a decência? Não seria espectacular?! Eu acho que tinha potencial para juntar milhões de membros e conquistar território aos gangues de mauzões que circulam por aí. O Gangue Humanitário podia ser o gangue mais numeroso do mundo, impondo as suas leis, mandando nesta porra toda e limpando o sebo a todos os gangues de escumalha que por aí andam. Olhai que devia ser espectacular ver este gangue a reinar o mundo!

 

Quem sabe, um dia, alguém se dá ao trabalho de fundar um gangue que valha a pena. Fica a dica. Até lá, continuo sem pertencer a um gangue. Mas a esperança é a última a morrer... Já agora, se é a última a morrer, quem é que lhe faz o velório, coitada?

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