Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

14.Nov.17

Lixeiros

Sérgio Ambrósio

Quase todos os dias, acordo com uma chinfrineira medonha. De imediato, vem-me à mente que foi desta que estalou, em Portugal, uma guerra civil, à séria, com armas, bombas e tudo, por causa da Web Summit, do jantar no Panteão ou da última mentira do Pedro Guerra. Afinal, chego à conclusão que são só os lixeiros em mais um dia de trabalho.

 

É verdade, quando o camião do lixo passa à minha porta, fico na dúvida sobre se são os lixeiros ou se foi alguém que gamou um tanque de guerra, em Tancos, e escolheu a minha rua como rota de fuga do assalto. Em vez de acordar como um anjo, ao som dos passarinhos a cantar na alvorada, deparo-me com uma sinfonia de guerra entre lixeiros e contentores do lixo.

 

Não sei que mal fizeram os contentores do lixo para que os técnicos de recolha de resíduos sólidos urbanos tenham que xingá-los em decibéis elevados, tenham que pegar-lhes pelos colarinhos, enfiar-lhes a cabeça num camião pestilento e atirá-los, com força, de forma cruel, para um passeio de cimento frio. Pior, para um pavimento de paralelos que, com certeza, lhes magoa as rodinhas. Pena que não vejo isto na imprensa, nem ninguém a unir-se ou a assinar petições contra os maus tratos dados aos caixotes do lixo.

 

Os indivíduos das claques são uns meninos ao pé dos lixeiros. Rebentar petardos é uma brincadeira de crianças se compararmos com as bombas nucleares que os lixeiros conseguem produzir com a simples tampa de um caixote do lixo. Eu acho que é preciso sensibilizar os senhores do lixo a tratarem de forma mais respeitosa e carinhosa objectos inanimados que não lhes podem dar luta. É necessário levar psicólogos e pessoal médico especializado aos centros de recolha do lixo, a fim de averiguarem o motivo de tanta raiva exalada pelos lixeiros. E darem um tratamento que cure esses homens.

 

Tudo isto, antes que aconteça uma desgraça, que é deixarmos de produzir lixo. É que as pessoas não estão a ver o panorama: se deixarmos de fazer sujeira, os lixeiros não têm lixo para recolher e, consequentemente, estes homens ficam desempregados e acabam-se as carreiras da Ana Malhoa, Zé do Pipo, Nel Monteiro e afins.

 

É que são os lixeiros que fornecem material a estes artistas para eles reciclarem, em estúdio, e depois tranformarem em música, ou lá como eles chamam àquilo. Sem isto, meus amigos, eu queria ver o que é que a TVI iria exibir aos domingos à tarde! Nem é bom pensar. Por isso, este ano, em vez de fazerem o Natal dos Hospitais, façam o Natal dos Lixeiros, a ver se os homens ficam sensibilizados a fazer menos poluição sonora e a tratar os caixotes do lixo com a dignidade que merecem. Antes que ocorra uma verdadeira tragédia neste país…

21 comentários

Comentar post