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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

30.Nov.17

Moda na Passadeira

Sérgio Ambrósio

E aquelas pessoas que atravessam a rua, na passadeira, mas pensam que estão a desfilar na passarela? Era metê-las a todas num contentor de um navio e pô-las a desfilar em Nova Iorque, não era? Não. Porque depois os nova iorquinos iam ficar, com razão, chateados por lhes impingirmos estes portugueses foleiros.

 

Estou seriamente a pensar deixar de parar nas passadeiras. Eu vou dar prioridade ao meu egoísmo porque não estou a conseguir digerir a quantidade de pessoas que se atravessam à frente do meu carro e têm uma atitude de vedeta pior do que as modelos da Victoria’s Secret.

 

Quando eu paro o carro, na passadeira, as pessoas devem pensar que eu vou sacar da minha máquina fotográfica profissional e que elas têm que se pôr em pose, funcionando como manequins, numa sessão de moda, para que depois, no dia seguinte, as fotos saiam na revista Vogue ou na Nova Gente.

 

Ou então, quando atravessam, devem julgar que sou um caça-talentos e elas têm de dar o melhor de si, desfilando pausadamente, para que eu lhes veja a graciosidade e a tarimba exigidas e lhes ofereça, logo ali, um contrato profissional de modelos.

 

Pessoas, eu não sou o Luís Buchinho, nem o Nuno Gama, eu só quero que vocês atravessem a rua, sem exibições, e desamparem-me a loja. Se querem que alguém aprecie o vosso outfit e a vossa destreza como manequins, mandem os vossos vídeos ou fotos para o Polícia da Moda da CMTV, por favor.

 

As pessoas metem-se na passadeira com a altivez de quem está a desfilar para a Dolce & Gabbana ou para a Gucci e nós temos que ser aquelas pessoas que estão na plateia dos desfiles de moda, com uma sumptuosa cara de tanso, a ver as tendências da nova estação.

 

Estas pessoas, que param o trânsito, não deviam agradecer por deixarmo-las passar. Deviam agradecer o facto de não termos tendências assassinas e de não arrancarmos com o carro contra elas, ao mínimo tique de exibicionismo à pavão. Bolas, que as passadeiras, na rua, estão mais apinhadas de pseudo-manequins do que o Instagram.

 

Deviam abrir menos agências de modelos e mais agências que dessem formação a peões para caminhar sobre linhas brancas pintadas no alcatrão. Atravessar a rua como pessoa normal, de tão raro, devia dar como recompensa a Ordem do Infante. Atravessar a rua como imitadora da Sara Sampaio devia dar multa e apreensão da carta de transeunte.

 

Quando virem a notícia, no Telejornal, de um lunático que entrou de carro na passarela do Portugal Fashion, nada temam, mantenham a calma, não foi nenhum acto terrorista. Sou apenas eu a vingar-me. Porque se a passadeira da estrada é lugar para manequins, então a passarela do Portugal Fashion é lugar para eu estacionar o meu veículo de quatro rodas.

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