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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

15.Dez.17

Quem Espera Por Mim?

Sérgio Ambrósio

Nada para fazer aqui. Apenas olhar o vazio duma outra forma, uma mais original, que é escrevê-lo. Olhar para a rapariga que lê um livro, o qual não vislumbro o título, é o que tenho de mais apetecível para fazer. Ela é bonita, nada de extraordinário, mas a forma como cruza a perna e segura o maço de folhas é, para mim, duma sensualidade contagiante.

 

Queria ser assim um livro para que ela me olhasse daquele jeito, com aquela atenção, que esboçasse aqueles sorrisinhos, sem eu dizer nada. Que me segurasse sem eu pedir. Que me colocasse no seu regaço sem eu ter apetite de mimos.

 

O tempo passa e mais nada. Só divagações de hospital que afinal são tão comuns como noutros lugares. Há gente que chega. Só estou fixo na leitura dela. Quer dizer, na leitura dela e na redacção disto. Levantou os olhos. São ligeiramente verdes. Há um homem que me soslaia o telemóvel e desfolha uma revista, embarrando-me o cotovelo.

 

Há uma mamã com dois filhos. A filha chama-se Ana. Chamou-lhe assim nem há um minuto. Isto de esperar no hospital é uma seca. É quase tão mau como a parvoíce que escrevo. Escrever só é melhor porque me distrai. É uma inocuidade que me anima levemente. O tempo até podia passar mais rápido mas a Doutora não me chama para a consulta.

 

Ela cansou-se de ler. Guardou o livro na mala. Puxou do telemóvel. Somos dois agora a escrever. Ela não sei para quem e eu escrevendo para mim e sobre ela. Que impessoalidade chamar-lhe ela. Se visse o título do livro inspirava-me para lhe atribuir um nome. Assim não arrisco, não me comprometo. Alguém lhe liga. Gosto da voz adocicada dela. Está frio. Já me arrependo de ter tirado o casaco, mas tenho vergonha de voltar a vesti-lo.

 

Não me apetece escrever mais, nem descrever as voltas que um senhor vai dando à minha frente. Mas o ecrã continua sem indicar os números da minha senha. Respiro fundo. Já vazei um dízimo de aborrecimento. Devo ficar bem até ser chamado. Entretanto, vou olhando para ela. Isto de escrever não se compadece com apreciações de mulheres (que frase tão chunga, meu Deus!). É mais um sinal para parar. Ok, fim. Disto. A espera, essa, vai continuar.

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