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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

27.Nov.17

Tenho de Escrever?

Sérgio Ambrósio

Podia estar a namorar. Podia estar a passear junto à praia. Podia estar no cinema. Podia estar a consumir drogas. Podia estar a coscuvilhar os meus vizinhos. Mas não. Troco toda uma actividade potencialmente prazerosa pelo ofício de escrever. Desta vez, escrevo para responder ao desafio da Catarina Duarte do blog (in)sensatez.

 

Escrever é doloroso, sofre-se, sua-se, desiludimo-nos, esforçamo-nos, tentamos a superação, avançamos, recuamos, apagamos, duvidamos. Umas vezes, achamos que escrevemos o pior texto do mundo. Outras vezes, achamos que escrevemos algo engraçadito, que não faz Camões dar voltas, no túmulo, pelo trato dado à língua portuguesa.

 

Não é escrever que é prazeroso. O resultado da escrita é que é agradável, é um alívio. É o cumprir-se uma missão, não se ter desistido, é a coragem de se mostrar um produto que advém do labor com as palavras, do pensamento, da tentativa e erro e da nossa imaginação.

 

Escrever é a metáfora da vida: não podes ter medo, tens de ter o espírito aberto, tens de ser perserverante, tens de dar o máximo e o melhor de ti para que coloques o ponto final e te sintas orgulhoso. Lutaste, sofreste, agoniaste, mas venceste se cumpriste o teu propósito de escrever, de te expressares, de comunicares, de criares.

 

Escrever faz-me respirar, faz-me amansar o vulcão que quer explodir no meu peito. Escrever faz-me querer ler mais, faz-me querer viajar. Escrever faz-me acreditar que ainda há esperança para o mundo e espaço para as pessoas serem melhores.

 

A minha escrita não vai mudar o mundo, nem Portugal, nem a minha rua. Mas pode mudar-me enquanto pessoa: fazer com que tolere melhor as angústias da vida ou compor o mundo à minha maneira. Além disso, pode ajudar a distrair alguém que me lê, provocar-lhe um pensamento, uma reflexão, quiçá, um sorriso nos lábios. É por isso que tenho de escrever: quero fazer bem aos outros, fazendo bem a mim mesmo.

 

O sinal maior de que preciso de escrever é que, se eu não o fizer, a minha vida não existe, não se concretiza, não se realiza. Escrever é uma forma de dizer “eu existo, eu tenho opiniões, eu também sou palerma”. Escrever é uma forma delicada de pedir aos outros: «vá lá, gostem de mim, mesmo que eu seja um palerma, dêem-me palavras bonitas, tomem estas palavras, são para vocês, vêem como sou generoso?». É um toma lá, dá cá.

 

A bem dizer, escrever não serve para nada de realmente importante. Reparem: não nos livra da morte, não nos cura das doenças, não faz com que Deus deposite um milhão de euros na nossa conta bancária. Portanto, escrever serve essencialmente para eu me sentir vivo. E, parecendo que não, isso é verdadeiramente importante para mim.

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