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Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

Tudo passa carago.

E melhor passa se tiver graça.

21.Out.17

Dragão: Teatro de Fogo

Sérgio Ambrósio

Em caso de incêndio nas bancadas, a nossa paixão assume a responsabilidade. Porque o Porto é o lume que nos aquece o coração.

 

Só somos felizes a descer a Alameda, com o coração a bater mais forte ao vermos o nosso amor. Lá ao fundo, na ânsia do abraço que acalma, no stress da ausência que inquieta.

 

Os nossos olhos renovam-se ao contemplar o estádio. Como se tudo de mau que foi visto ficasse do lado de lá das pálpebras e proporcionasse a liberdade à beleza.

 

Noventa minutos onde nos permitimos sonhar, num país onde sonhar é proibido e onde ter esperança no futuro, dizem-nos, é utopia.

 

Passar o torniquete é ter o vislumbre do paraíso. Aliás, o torniquete é o S. Pedro do futebol. Só quando o aço gira é que a alma está salva.

 

Vamos contentes para o estádio porque sabemos que há alguém que se importa connosco, que nos quer fazer felizes. Nem que seja por breves momentos. Alguém que vai lutar por nós. Ter um carinho especial. E marcar um golo é uma forma de nos abraçar. E dar-nos uma vitória é uma forma de dizer que gostam de nós.

 

No estádio, cantar não é uma maneira de falar com os jogadores. É uma maneira de falarmos entre todos. A nossa voz é o coração do estádio.

 

O relvado é o tabuleiro de subbuteo onde brincávamos em miúdos. O relvado é a lâmpada de Aladino, de onde tudo pode surgir.

 

Depois, há as faces dos homens-jogadores que olham as bancadas incrédulos, sem perceberem de onde vem tanto amor. Pontos nas bancadas que são, por certo, pessoas com o coração cheio de sonhos.

 

Cantamos no ritmo da paixão, com os braços ao alto, como se fôssemos amparar Deus na queda. O Dragão é o nosso paraíso. Para os rivais, o Estádio do Dragão é uma sala de masoquismo, de onde quase sempre saem supliciados.

20.Out.17

Email do Marcelo para o Gustavo Santos

Sérgio Ambrósio

Num desleixado exclusivo deste blog, tive acesso ao email que o Presidente Marcelo mandou ao Gustavo Santos, na sequência do post que o escritor, life coach e tv host escreveu a dizer que precisava de falar com o Presidente. Partilho convosco a resposta do Marcelo para o Gustavo Santos. Um impreciso exclusivo. Embrulha, CMTV.

 

“Boas, Gustavo Santos. Vi o teu post no facebook sobre mim! Ai o que eu me rio com os teus posts, rapaz. Bom, desculpa só responder agora mas é que estive a ver a floresta ardida e a dar um puxão de orelhas ao António Costa. Gostaste? Bom, não quero saber.

 

É improvável responder a um gajo como tu mas como costumas fazer os posts certos nos lugares certos, eu respondo-te.

 

E é porque acima de tudo e de todas as estupidezes, escolhes ser uma personagem engraçada. E estás no Facebook e no Instagram porque é onde estão todos os vendedores da banha da cobra que, sem despudor, tentam vender ilusões, as suas frases feitas, os seus chavões, o seu camuflado desinteresse pelos outros, mostrando o amor que têm pelo dinheiro, mais do que tudo. Eu sei do que falo porque fui comentador político muitos anos.

 

Adiante. Confesso que também não votava em ti nem para a Presidência da Associação de Pais da Escola Primária da Musgueira. Mas quer dizer, andei eu aqui a gastar o meu parlapié contra a abstenção e vens-me tu armado em guru da ética e da boa moral dizer que nunca na tua existência votaste?

 

Olha, rapaz, eu também não compareço em nenhuma apresentação dos teus livros, não apoio farsolas, não entrego uma centelha que seja da minha influência e do meu prestígio nas mãos de quem nem dono dos seus livros é. Sim, porque os livros não te pertencem. São propriedade da editora. Eu sei como funciona o comércio dos livros porque fiz muita propaganda deles na televisão. Vendi muitos…

 

E agora é diferente porquê? Por que me viste a falar com o Zé Povinho? Ou por que me viste a dar um raspanete ao Costa? Não inventes, mal qual medo? Mas estamos na Venezuela ou quê? Mas qual instauração do amor? Eu não sou nenhum hippie, eu sou político.

 

Cala-te, eu não quero o teu amor em nenhuma cruz ou boletim de voto ou urna. Opá, então tu nunca votaste, lá sabes agora se aquilo é pôr uma cruz no boletim e meter o papel na urna. Não sabes, meu, cala-te.

 

Ai agora queres falar comigo e achas que a vida nos irá pôr frente-a-frente? Está bem está, olha-me este… Opá, eu parece que estou em todo o lado mas acredita que onde tu estiveres eu vou fugir a sete pés. Eu não quero cá confianças com gente que não exerce o seu direito cívico! Mas estamos a brincar às liberdades ou quê?

 

Vá, continua aí a escrever as tuas marinadas de auto-ajuda para os mais distraídos… Queres uma horinha comigo, Gustavo? Mas estás a falar com o Presidente da República ou estás a falar com uma menina do relax dos jornais? Estás aqui estás a pedir sessenta minutos grátis, com direito a abraços, afectos e palmadinhas nas costas, não? Pá, lamento, mas não há happy ending para ti. Votasses… Viva o Sporting Clube de Braga!”.

20.Out.17

Frases do Meu Suposto Livro

Sérgio Ambrósio

Eu sei que não me perguntaram nada. Sei que também devem pensar como o Romário: que eu caladinho era um poeta. Na verdade, eu gostava de fazer alguma coisa significativa pela minha vida e ocorreu-me que poderia ficar no Panteão cá da minha zona se escrevesse um livro de auto-destruição. Sei lá, podia dar-me para pior.

 

E isto não seria um livro, seria mais uma missão minha. Foi Deus que me incumbiu de tal ofício. Tipo, não foi nada, mas às vezes uma mentira é a melhor campanha de marketing que um calhorda pode ter.

 

Porquê? É uma coisa que está em falta nas livrarias. Não? Pronto, epá, apanharam-me. Eu não consigo mentir, muito menos aos prezados 3 leitores que acompanham este blog. Eu queria enriquecer à custa de palavreado relativamente banal e pouco científico. Eu queria ter uma conta daquelas à séria, à homem, como têm o Sócrates e o Isaltino, lá na Suíça.

 

Comecei ontem a escrever o meu livro de auto-destruição e, como prometido, vou deixar-vos aqui algumas frases desoladoramente inspiradoras. Deixo um aviso aos leitores mais sensíveis: se és fã de livros de auto-ajuda, por favor, não leias os trechos seguintes. Ignora-os. Lê-los pode afectar severamente o teu humor. E a desistires invariavelmente de atingires a suprema felicidade. Espero que vos seja útil, respirem fundo, cá vai:

 

- Não vale a pena viveres, o amor é uma farsa. Mas também não vale a pena morreres, o inferno fica mais sobrelotado.

 

- A melhor maneira de seres feliz é matando o teu cérebro. Ou então, assassinando os escritores de auto-ajuda.

 

- Nunca pediste nada a Deus. Mas Ele vai dar-te o castigo de encontrares uma mulher feia, infiel e insuportável.

 

- Não existe amor. Só perdes tempo a ler o horóscopo.

 

- Tu não podes ser o que queres: serial killer não é vida para ninguém. Além disso, é um trabalho muito sujo.

 

- A vida é uma cabra e tu tens de ser o seu pastor tarado em zoofilia.

 

- Não tenhas alma porque a alma não serve nem para guardar uma Kalashnikov.

 

- Não te canses muito, a vida é um part-time entre a barriga da tua mãe e o teu caixão.

 

- Usa e abusa de drogas. É o único alívio que vais sentir quando souberes que a tua namorada anda a comer todos os gajos do escritório onde trabalha.

 

- Não faças muitos filmes na tua cabeça, senão a tua psiquiatra ainda te dá um Óscar.

19.Out.17

Autoajuda ou Auto-Ajuda (ou lá como se escreve)

Sérgio Ambrósio

Ainda bem que o caro leitor veio ler esta crónica. Estava mesmo à sua espera. Leia que é grátis, não tem de pagar nada. Ao contrário da literatura de autoajuda, em que o leitor tem de gastar 20 paus num livro, ao menos aqui é mais económico. Pode perder tempo mas dinheiro não perde.

 

No entanto, há alturas em que eu acho que era melhor ler a parvoíce dos livros de auto-ajuda do que estar a ler os meus próprios pensamentos. Mas não me apetece estar a enriquecer esses escritores e essas editoras. Gastar agora 20 euros no livro e daqui a 6 meses eu estar numa feira de velharias a vendê-lo por 1 euro, e mesmo assim ninguém lhe pegar, parece-me um mau negócio. E quem é que quer comprar conselhos para a felicidade por 1 euro? Ninguém, porque as pessoas não são estúpidas, por 1 euro vêem logo que o livro é tanga.

 

Depois assola-me uma dúvida. É o nome: auto-ajuda. Auto-ajuda? Mas como é que eu vou ajudar-me a mim próprio, se eu nem me dou bem com a pessoa que sou? É o cabo dos trabalhos. Vamos lá ver uma coisa, se os conselhos fossem assim tão bons, acham mesmo que os livros de auto-ajuda só custavam 4 contos já com IVA? Vão ao dentista pedir conselhos sobre uma boa dentição e ele não vos cobra menos de 40 euros. E não recebem um livro, só recebem uma folha, que é a factura.

 

A receita mágica para a felicidade é mais ou menos isto: não te chateies muito senão ainda faleces rápido. É só isto. Não há receitas mágicas para a vida. Porque ninguém sabe muito bem o que a vida é. Mas arrelia-me que um gajo não se possa sentir perdido na sua existência que, mal entra numa livraria, depara-se logo com 200 títulos de livros de auto-ajuda. Por favor, deixem um gajo lixar-se à vontade.

 

Se um escritor de livros de auto-ajuda me quisesse realmente ajudar ele não escrevia livros. Vinha a minha casa e limpava-me o carro, que anda sempre sujo. Agora, toma lá um livro, passa para cá 20 paus e desenrasca-te. Isso não é nada. Vou ter que ter o trabalho todo a ler o livro, ainda por cima. Cá para mim, a auto-destruição é mais económica. E é capaz de ser mais divertida.

 

Vou mas é enveredar pela literatura de auto-destruição a ver se ganho uns trocos, que a vida não está fácil para ninguém. Sou capaz de começar assim: “tu consegues tudo, até falhares na vida, basta pensares positivo!”. Amanhã sou capaz de vos mostrar mais umas frases nada inspiradoras. Se não tiverem livros de auto-ajuda para ler, já sabem, passem por aqui.

18.Out.17

Só Há Derrota Se Esvair-se o Amor

Sérgio Ambrósio

A maior tristeza não é perder. A maior tristeza mesmo é ver deuses vestidos de azul e branco revelarem a sua costela de humanos.

 

Quando o Porto perde, a matemática do sangue congela. É como se o nosso amor fosse mordido por uma cobra venenosa e que só o beijo no emblema repelisse o líquido maléfico e devolvesse a normalidade ao corpo.

 

Quando o Porto perde, há um olá que é sepultado. A vida entra em incoerência. O futebol contradiz-se. A vida é uma natureza morta. Avariou o GPS ao destino, que deveria saber que no Estádio do Dragão só podem morar vitórias.

 

Quando o Porto perde, o futebol devia solidarizar-se e acabar em sinal de respeito. Forma-se uma noite que engole mitos. O diabo come mais um pouco de carne à humanidade do norte do mundo.

 

Na dor da derrota, até as facas são suaves. Mas a derrota é um vírus que só curamos com mais portismo, com mais amor.

 

O Porto ganha: as pessoas felicitam. O Porto perde: as pessoas apoiam. Sabemos quem somos: a matéria singular que compõe o coração do FC Porto.

 

Hoje no Inferno. Amanhã no Paraíso. Uma certeza: os portistas vão juntos a todo lado.

 

E vós, simpatizantes de outras cores clubísticas, como viveis o amargo da derrota?

17.Out.17

Deveríamos Ser Todos Ciganos

Sérgio Ambrósio

É verdade. Porque o Estado não falha com os ciganos. Nem as Câmaras Municipais. Nem as Juntas de Freguesia. Nem as instituições de solidariedade social. Quem não gosta de ciganos, não o faz pela cor da pele, fá-lo porque inveja o lifestyle dos ciganos.

 

Isto não é a fazer pouco dos ciganos. É uma ode aos ciganos. Porque os ciganos é que estão certos na forma como encaram a vida: exigem tudo do Estado. Mesmo que tenham que bater ao Presidente de Junta ou da Câmara ou à PSP. O único cigano que eu conheço que trabalha – e bem – é o Ricardo Quaresma. E trabalha porque quer, obviamente.

 

O Estado funciona com os ciganos, excepto com a restante população portuguesa, que tem de trabalhar para sobreviver. Ora, isto deve-se ao facto dos portugueses, que não são ciganos, serem muito brandos e pouco exigentes com quem manda no nosso país.

 

Há pessoas que comem o pão que o diabo amassou para durante 30 anos pagar uma casa ao Banco. Aos ciganos dão casas. Isso é que está certo. Porque a gente vai (como é que se diz?) falecer, um dia, e só andamos a rebentar o lombo para pagarmos um espaço onde só dormimos praticamente e depois nem levamos nada connosco quando formos para a outra vida.

 

Uma pessoa normal (ou dita pobre, vá) levanta-se às 6 da manhã, toma banho, faz o pequeno-almoço para os filhos, leva os miúdos à escola, vai alombar por um salário mínimo das 8h às 17h, vai às compras, vai buscar os filhos à escola, faz o jantar, lava a louça e depois, quando tem tempo para ver uma novela ou uma série, adormece. Enquanto isso o cigano está no bem bom, fresco que nem uma alface, depois de ter visto todos os episódios da última temporada da “Guerra dos Tronos”, num só dia. Dá inveja, não dá?

 

Ou seja, para se ser feliz neste país a condição essencial passa muito por ser cigano. Se houvesse um referendo em Portugal para decidir quem queria mudar de etnia, eu queria deixar de pertencer à etnia dos estúpidos e passar a ser cigano.

 

André Ventura, por exemplo, podia ter sido mais inteligente. Em vez de atacar os ciganos, devia ter dito que iria pôr toda a gente a viver o lifestyle dos ciganos em Loures. De certeza que ganhava a Câmara e a sua popularidade iria subir a pique ao ponto de os politólogos apontarem-no como futuro Primeiro-Ministro.

 

O cigano não precisa de ir à escola. Muito menos à escola de condução. Não precisa de comprar livros, tem de graça. Tem casa de graça. Tem água, luz e gás de borla. O Estado paga-lhes subsídios para passearem, dançarem e aproveitarem a vida, que é tão curta, não trabalhando. Concluindo, o cigano veio ao mundo para ter tudo de graça!

 

E provoco eu, não deveria ser assim para toda a humanidade, tendo em conta que isto é tão breve, que daqui a nada batemos a bota e nem aproveitamos a vida? Acho que temos de parar de odiar ciganos e vivermos como eles.

 

Pronto, não tem que ser ipsis verbis, podemos ter uma atenção diferente no quesito de moda e higiene. Mas, de resto, sermos todos ciganos era totil. Era o mais acertado, em suma. Porque o Estado não falha com nada aos ciganos. E o nosso problema é não sermos exigentes com o Estado. E nada fazermos mesmo quando o Estado merece levar duas chapadas na boca.

16.Out.17

O Perfil do Incendiário. Ou Terrorista Português

Sérgio Ambrósio

O incendiário é o tipo que não se filia na Al-Qaeda ou no Daesh porque não tem escolaridade para tal. Então pratica terrorismo doméstico, no meio da floresta, com uma caixa de fósforos.

 

O incendiário, ou melhor, o terrorista português é demasiado cobarde para pertencer a uma organização terrorista porque não tem coragem de se matar a ele próprio numa explosão. Opta, então, pela segurança de pôr fogo, fugir e fascinar-se por provocar somente a desgraça alheia.

 

O terrorista português é aquele que, sem nada para fazer em casa, vai incendiar floresta equivalente a cem campos de futebol só para desfastio.

 

O terrorista português é low profile. Não quer aparecer com a sua cara na TV como o Emplastro porque geralmente é feio e tem os dentes estragados. Prefere que apareça na TV o seu trabalho de diabo: o fogo a consumir a natureza e os bens das pessoas.

 

O terrorista português é aquele que se acha inocente porque raramente mata pessoas e não sente remorsos ou culpa porque as árvores e as pastagens tornam a crescer.

 

O terrorista português tem tanto medo de ser formado e escolarizado que deita fogo às árvores na esperança de que não se façam mais livros para ele não se sentir um asno.

 

O terrorista português acha que nunca tem idade para ter juízo, por isso deitar fogo é um estilo de vida para cumprir enquanto o diabo lhe der forças e não lhe faltarem as mãos para acender o isqueiro.

 

A mulher incendiária/terrorista portuguesa é aquela que acha que se puser fogo no mato o marido vai ser mais carinhoso para ela, bem como a população em geral.

 

O terrorista português não tem medo dos bombeiros porque eles são soldados da paz. Ele só teria medo de alguma autoridade se o castigo fosse severo e não uma anedota.

 

O terrorista português geralmente nunca viu o mar e acha que se chegar fogo à floresta os bombeiros podem convocar uma onda do mar para passar na sua aldeia a caminho das serras cheias de lume.

 

O terrorista português nunca viu um helicóptero, ao vivo, e vê-los a passar fá-lo lembrar-se dos filmes do Rambo que via na televisão na infância.

 

O terrorista português é abandonado pela mulher e vai carpir mágoas para o meio da floresta com uma caixa de fósforos numa mão e a cerveja na outra.

 

O terrorista português vai deitar fogo ao terreno do vizinho porque este não lhe deu um cigarro no café.

 

O terrorista português está tenso e em vez de ir fazer ioga ou pilates vai deitar fogo à serra para libertar a tensão.

 

O terrorista português quer ter uma erecção. Em vez de procurar uma mulher, ver um filme porno ou desfolhar a Playboy, ele só atinge o orgasmo ao ver uma árvore a bambolear-se em labaredas.

 

O terrorista português nunca fez nada de relevante na vida para ser notícia na televisão. Deita fogo a uma bouça e, na televisão, falam daquilo o dia inteiro e ele sente-se a estrela da terra, julgando-se o mais esperto.

 

O terrorista português reincide porque sabe que não vai para Guantánamo. Por vezes, sabe que até nem fica na cadeia.
 

O terrorista português acha que o verde já está muito batido e que a paisagem fica mais espectacular carbonizada.

 

O terrorista português acha que os velhotes das aldeias passeiam pouco e então serem evacuados pela Protecção Civil é uma forma de passearem e saírem da rotina.

 

O terrorista português ouve na televisão que Portugal está uma desgraça e, ao chegar-lhe o fogo, julga que é uma forma de purificá-lo.

 

O terrorista português devia ser identificado e ter pulseira electrónica e levar choques de cada vez que se aproximasse de uma árvore.

 

O terrorista português devia ficar na esquadra durante toda a época de incêndios. Ou seja, Primavera, Verão e princípio de Outono. 

 

O terrorista português ataca pessoas, florestas e património. Só quando pegar fogo a Bancos, Ministérios e Embaixadas é que vai ser considerado oficialmente terrorista? Ou nem assim é terrorismo em Portugal?

 

A realidade é que enquanto não tratarem os incendiários como terroristas não vai diminuir o número de incêndios em Portugal. O meu medo é que o Estado funcione como outro terrorista que não quer saber disso para nada. E aí, meus patrícios, estamos todos fritos.

 

15.Out.17

A Brasileira do Badoo

Sérgio Ambrósio

Conhecemo-nos através de um clique mas depressa trocamos olhares na vida real. Não tem graça conhecer as pessoas somente pelo wi-fi da internet. Na verdade, eu só quero ter a certeza de que não estou a falar com um robot. Ou pior, que não estou a gastar o meu latim com um gajo que não tinha nada mais proveitoso para fazer do que criar um perfil falso.

 

Ao vivo, nunca é a mesma pessoa. Nas fotos, parecia mais gordinha. Nas mensagens, parecia mais extrovertida. No perfil, dizia que não queria aventuras. Mas lá estava ela metida no shopping prontinha para me olhar a alma de cima a baixo. Porque o que está em jogo é saber onde está a estupidez: se na pessoa que vamos conhecer ou em nós que marcamos o encontro.

 

O bónus acontece quando nenhuma das situações se verifica. Porém, senti-me enganado nos primeiros balões do nosso diálogo. Não aquela enganação de sacanice, propositada. Mas antes um equívoco gostoso, igual ao açúcar do português que ela falava. Eu dizia-lhe que aquele português não era de verdade. Porque português de verdade não tem sotaque. Ela irritava-se e eu gostava.

 

Catorze anos de moradia em Portugal deveria ser suficiente para se perder um sotaque. Não era o caso dela. Teimosa, orgulhosa, determinada, foram os únicos lugares comuns que achei nela. Em tudo o resto, a mais perfeita estranheza. Brasileira que não liga para futebol? Não pode. Brasileira que não gosta de funk? Não tem. Brasileira que nunca dançou créu? Não existe.

 

Eu tinha sido exigente no pedido ao Cupido mas nunca pensei que ele me pusesse a jogar à desconstrução de estereótipos. Brasileira que não bebe caipirinha? Não brinca. Brasileira que nunca assaltou ou foi assaltada? Impensável. Brasileira que não fala calão nem asneiras? Fica foda acreditar em alguém assim, que diz ser brasileira e depois não corresponde à formatação da sociedade.

 

A polícia isto não avisa: “cuidado, cidadão, que nas redes sociais pode encontrar brasileiras de nacionalidade mas travestis de costumes, depois de as conhecer na realidade”. Deixei o melhor para o fim. Com tanto desenraizamento, acabamos por unir as nossas bocas. Talvez para silenciar as diferenças, driblar a estranheza e dar calor à carência. Agora percebo a indignação de muitas pessoas com as redes sociais. É que elas nunca se desconectam e deixam sempre a estupidez ligada. Pior: é que elas sempre generalizam e nunca acreditam que podem mesmo encontrar uma pessoa diferente de todas as outras. É pena, só perdem.

14.Out.17

Entrevista à cadeira da AG do Benfica

Sérgio Ambrósio

Agora que a poeira assentou, consegui um exclusivo que nem o Correio da Manhã pensou ser possível. Pois é, meus amigos, alguém tem de fazer o que realmente importa para este país ir para a frente e eu consegui uma entrevista com a cadeira que foi agredida na última Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica.

 

Eu: Antes de mais, obrigado por conceder esta entrevista a este modesto blog… Conte como está de saúde. Está melhor?

 

Cadeira: De nada, eu estou aqui para servir o povo naquilo que me for possível. Menos ser usada para rachar cabeças de pessoas. Foi isso que aconteceu e, além das mazelas físicas, ainda estou muito martirizada psicologicamente. Já ando a fazer contas à minha vida e, se calhar, vou ter que gastar umas economias no Bruxo de Fafe para ultrapassar este meu mau bocado.

 

Eu: Então ainda não regista melhorias?

 

Cadeira: Nem por isso, sabe. Saí hoje de manhã da Urgência do Senhor Armando Carpinteiro, que tratou de mim e me deu alta, mas ainda sinto umas fisgadas de dor aqui no meu tampo de madeira. Por isso, é que estou a tomar providências para ir ao Bruxo de Fafe. É que ninguém me tira da cabeça que isto foi bruxedo que me fizeram.

 

Eu: Lembra-se do que aconteceu naquela fatídica noite?

 

Cadeira: Sim, claro que lembro. Fui violada, foi o que se passou. Agrediram-me, chamaram-me muitos nomes, abusaram de mim e ainda me mandaram ao ar como arma de arremesso para aleijar lá o senhor a quem eles queriam bater. Deixaram-me aqui toda partidinha. E olhe que eu não fui lá para arranjar confusões com ninguém. Lembro-me de estar sossegadinha com um senhor de 70 e tal anos bem refastelado em cima de mim, quando sinto uma momentânea leveza. Ou seja, o senhor levantou-se. Nisto vem um jovem musculado, que se babava muito devido à raiva, e eu pensei: «valha-me Nossa Senhora da Resina que estou aqui tão sossegada com o velhote e vem este atrevido dar-me cabo da estrutura». E foi isso, o jovem pega em mim com aquelas mãos todas gordurosas, nem teve a delicadeza de as limpar antes de tocar em mim, e zás, levanta-me ao ar e atira-me para cima lá do senhor que pertence à direcção do Benfica.

 

Eu: E o que sentiu nessa altura?

 

Cadeira: Primeiro, umas vertigens medonhas… Na maternidade onde nasci, na fábrica da Ikea em Paços de Ferreira, queriam que eu fosse uma cadeira de avião, que era muito bom, que só laureava a pevide e tal mas não quis. O meu sonho sempre foi o futebol. Sempre quis fazer carreira no futebol. De modo que me sinto e senti-me muito desiludida. Senti uma enorme vergonha em ter aleijado o senhor, coitado, que foi para o hospital e tudo. Pedi-lhe muita desculpa e que a culpa tinha sido daquele brutamontes, que foi um cobardolas. Se ele fosse corajoso ia lá ele agredir o senhor, não me mandava a mim, ora essa!

 

Eu: Então a senhora não é adepta de violência…

 

Cadeira: Não, nada, nada. Eu até tenho umas primas minhas emigradas em França e elas estiveram a trabalhar nas esplanadas de bares, em Marselha, quando foi aquilo do Euro 2016. Coitadas, viram a morte à frente delas quando se deu aquele conflito dos hooligans russos contra os ingleses. Elas ficaram todas partidas. Eu, que já era contra a violência, quando soube dessa história até fiquei doente. Nossa Senhora da Resina me livre. Aquilo é que foi um atentado terrorista contra as cadeiras… Mas está a ver, a gente aqui em Portugal, em paz, e de repente vêm estes meliantes inquietar-nos. É por isso que eu digo, rogaram-me alguma praga.

 

Eu: Pondera voltar ao Benfica quando estiver totalmente recuperada?

 

Cadeira: Neste momento, estou a pensar no que vou fazer da minha vida. Amanhã devo telefonar aos meus advogados a ver se é possível entrar com algum pedido na justiça para ver se, ao menos, pagam os curativos que tive que fazer no Senhor Armando Carpinteiro. Mas não devo querer voltar ao futebol. Estou muito transtornada. E eu fiquei para a minha vida, sabe! Eu não sabia que o presidente do Benfica era tão dado a dizer asneiras. É um malcriadão! Fiquei embaraçada, já nem se respeita as senhoras e eu com tantos anos de dedicação àquela casa. Olhe que no tempo do Senhor Manuel Vilarinho havia mais respeito. Pronto, de vez em quando ele também soltava o seu palavrãozito mas aquilo já não era ele a falar era mais o vinhito.

 

Eu: As melhoras e felicidades para o futuro.

 

Cadeira: Olha lá, rapaz, tu é que me podias arranjar emprego lá na tua casa…

 

Eu: Gostava muito mas não dá. Já tenho lá tudo cheio.

 

Cadeira: Então e no teu blog não precisas de uma cadeira?

 

Eu: Não propriamente. Preciso de si para a entrevista mas não preciso de si para me sentar. Até porque o blog fica num espaço virtual na internet, como deve calcular.

 

Cadeira: Raios partam estas modernices que só tiram trabalho à gente.

 

Eu: Então adeus!

 

Cadeira: Vai lá, rapaz, que eu vou para casa fazer umas posições de ioga a ver se a dor alivia.

13.Out.17

Serial Killer

Sérgio Ambrósio

Corre um curioso fenómeno nas redes sociais, nos últimos dias. Eu vi no Facebook, no YouTube, no Instagram, no Pinterest, no Hi5, no Tinder e no Badoo. Mentira: no Tinder e no Badoo não se passa nada além de uma busca desalmada de sexo por humanos que mais parecem vampiros sequiosos por sangue. Mas o fenómeno que agita os dedos aos internautas é mesmo a despedida ao verão.

 

Toda a gente a dizer “ciao, meu querido”, «vou ter saudades tuas» e eu não sei porquê. Fico atónito com este tipo de declarações. E esta situação irritou-me de tal maneira que eu tive de ir ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Lá estava ele, o amado verão, carregado de malas, com os seus óculos escuros e uma cara de enorme bazófia. De tal modo que não tive coragem para falar com ele mas fiquei bem atento aos seus movimentos.

 

Na verdade, o verão tem mais cara de bandido do que de gajo bonzinho amigo das pessoas. O verão foi cúmplice em muitos crimes! Bastava pensar nisto para crescer em nós uma repulsa por este sujeito. Francamente, não percebo este carinho e saudade das pessoas pelo verão, quando ele é um lobo enganador vestido com calções e havaianas.

 

Sinto que o verão não devia estar no aeroporto a apanhar o avião que o leve para os próximos países onde vai praticar crimes. Devia, isso sim, estar sob escolta da PSP, GNR, Marinha, Força Aérea, Exército, Guarda Prisional, ASAE, PJ e Bombeiros, para que fosse levado para a cadeia de Custóias.

 

Mais, se estivéssemos na América, eu queria ver esse bandalho na cadeira eléctrica. Mas pronto, é a justiça que temos. Um gajo que ajudou a matar pessoas, que ajudou a queimar florestas, que auxiliou na propagação do cancro de pele, que auxiliou na seca extrema do país, e é vê-lo a ser bajulado e venerado por largas camadas da população portuguesa. É angustiante eu não ter capacidade para entender a tesão que um serial killer provoca nas pessoas. Frustante mesmo. Será que isto também passa, carago?

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